Covid-19

Como abrir o país sem criar nova vaga de contágio

Como abrir o país sem criar nova vaga de contágio

Peritos da área da Saúde não arriscam uma data para que a economia possa reabrir. Reunião com chefes de Estado e Governo correu em tom otimista.

O momento certo para começar a reabrir Portugal exige um equilíbrio entre a exposição dos portugueses à Covid-19, para que ganhem imunidade, e o risco de criar uma segunda vaga de contágio, antes do verão. Cautela e prudência foram palavras repetidas por quem esteve na reunião de ontem dos chefes de Estado e Governo com peritos da Saúde, partidos, parceiros sociais e conselheiros de Estado. Mas o tom global foi otimista. "É ganhar em abril o mês de maio", resumiu Marcelo Rebelo de Sousa.

Os quatro peritos da área da Saúde resumiram os dados de transmissão conhecidos até agora e foram unânimes quanto ao regresso das aulas presenciais após as férias da Páscoa: é impossível que alunos, de qualquer grau de ensino, regressem à escola na próxima semana [ler página 6]. Se isso poderá suceder em maio, ainda não é prever com segurança. Só com mais informação - ou seja, com mais tempo - será possível traçar cenários robustos para o próximo mês.

"Se regressarmos à normalidade demasiado cedo, corremos o risco de ter uma nova crista, antes de descer à cava da onda", ilustrou David Justino, vice-presidente do PSD. "Estamos na expectativa de regressar à normalidade, mas falar de um afrouxamento é precoce, porque ainda não há uma redução sustentada das incidências", acrescentou o presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos.

Um equilíbrio difícil

O isolamento social está a controlar a propagação da doença, mas não está a expor a população ao vírus e, sem isso, não se cria imunidade de grupo, que roubará à Covid-19 muito do perigo que hoje representa sobretudo para os idosos e doentes. Sem uma vacina, criar imunidade de grupo implica, portanto, expor a população ao vírus. Mas se a exposição acontecer demasiado cedo, arrisca-se a explosão de um segundo surto, ainda antes do verão.

"O problema é saber em que momento pode haver uma abertura faseada da economia, sem que haja um descontrolo" da pandemia, disse uma fonte presente na reunião. Para decidir, será determinante saber até que ponto os portugueses já estão imunizados, através de testes serológicos que indicarão se a pessoa já foi infetada. "O momento certo para iniciar os testes foi inconclusivo: se for demasiado cedo, corre-se o risco de haver muito pouca imunização, desperdiçam-se recursos", disse outra fonte.

Com tantas incógnitas, ficou decidida uma nova reunião, na próxima semana. Até lá, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa pediram aos peritos que estudem exemplos de outros países e analisem o impacto que a reabertura de determinados setores do país, de forma faseada, teria na curva de evolução da doença.

A articulação dos cenários deverá ser feita por Marta Temido. A ministra da Saúde esteve presente na reunião, sentada do lado do painel de peritos, e só fez uma intervenção inicial.

Um pico ou um planalto

A perspetiva otimista que perpassou a reunião espelha a evolução dos casos de infeções, internamentos e mortes por Covid-19. Os dados parecem indicar que Portugal poderá escapar ao destino de Itália e, agora, Espanha. Numa comparação feita a partir do momento em que Portugal, Espanha e Itália tiveram dois infetados por cem mil habitantes, a curva de evolução é muito diferente, sobretudo comparando com Espanha.

Ao 24.º dia, Portugal soma 121 pessoas doentes com Covid-19 por cem mil habitantes. Quando Itália estava numa fase semelhante da propagação, tinha 114 doentes por cem mil habitantes, mas Espanha quase duplicava o valor: 223 infetados.

A diferença para o país vizinho é igualmente marcante nas mortes. Em Portugal, o número de óbitos entrou nas casas decimais (0,12) a 21 de março. Após 24 dias, tinha 3,35 mortes por cem mil habitantes. Itália tinha o dobro dos casos de Portugal e Espanha o dobro dos casos de Itália.

Os epidemiologias admitem que Portugal já tenha entrado no planalto em que culminará a progressão da doença, mas não arriscam certezas. Só com mais dados - e mais tempo - será possível fazer novas previsões.

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