Infância

Como viver os dias de isolamento com crianças em quatro respostas

Como viver os dias de isolamento com crianças em quatro respostas

Desde o dia 16 de março que as escolas estão encerradas e há muitas famílias em casa com crianças, fechadas horas a fio, e dificuldade em saber o que podem fazer para que os dias sejam mais felizes.

Cláudia Gonçalves é pediatra e Coordenadora da Unidade de Neurodesenvolvimento do Serviço de Pediatria do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e responde a algumas das dúvidas dos pais que estão em permanência em casa com os filhos:

As crianças devem ficar sempre fechadas em casa?

A palavra SEMPRE é geradora de ansiedade. Deverão ficar O MAIS POSSÍVEL em casa; no entanto, tal como consta na legislação podem "dar pequenos passeios higiénicos", o que significa que, se morarem em prédios, poderão descer até à rua e "dar a volta ao quarteirão". Crianças pequenas poderão andar de triciclo ou de trotinete no passeio da sua rua, saltar à corda ou jogar à macaca, tendo o adulto acompanhante que acautelar a distância social, isto é, se todos os vizinhos se lembrarem de levar à rua os seus filhos, deve haver bom senso, escolhendo horas de menos movimento e optar por curtos períodos de tempo.

Quais as atividades mais indicadas para realizar em família?

As mais indicadas são naturalmente as "que a família gosta de fazer", posso deixar aqui algumas ideias, que promovem as competências de motricidade fina e autonomia das crianças, como ajudar nas tarefas domésticas, de acordo com a sua idade. As atividades de culinária são geralmente apreciadas pelos mais pequenos: bater bolos, amassar massa de rissol ou bola de carne, colocar massa em forminhas, moldar bolachinhas. Outra ideia é dobrar roupa, emparelhar peúgas, estender roupa, colocar as molas no estendal. Se tiverem animais de estimação, podem ajudar a escovar o pêlo do cão ou o gato, responsabilizar as crianças pela administração de comida e água nas horas certas (com supervisão), se tiverem um aquário, podem aproveitar para limpá-lo, mudar a água ou mesmo a decoração do mesmo, se tiverem um pássaro, podem limpar a gaiola, etc..Os banhos de imersão são muito apreciados pelas crianças e ocupam-lhes um bom tempo (de que geralmente não dispomos no nosso quotidiano), incitá-los e dar-lhes tempo para se vestirem e despirem de forma o mais autónoma possível. E depois temos as atividades de lazer em família: jogos de mesa: cartas, loto, damas, jogos de memória, de tabuleiro (como o Monopólio ou o Pictionary), jogos de palavras (stop), jogo do galo, leituras, anedotas, lenga-lengas, ver filmes atuais e antigos ou rever a coleção de cassetes de vídeo VHS dos pais, fazer artes plásticas, privilegiando o uso de materiais recicláveis: pintar, recortar, colar, fazer slime caseiro (adoram!), há imensos sites no YouTube com ideias e "receitas". Para os que dispõem de um espaço exterior (varanda, pátio, terraço) podem ainda ser aprazíveis tarefas de jardinagem, ou até mesmo de mera limpeza! Qual é a criança que não gosta de brincar com uma mangueira ou um regador?

Quantas horas no máximo podem as crianças jogar videojogos?

A tecnologia ocupa um lugar cada vez mais preponderante na nossa sociedade e nas nossas vidas, que se tem vindo até a intensificar com o apelo ao teletrabalho, o uso de plataformas de ensino à distância ou as compras online, pelo que seria "irracional" defendermos o seu "não uso" pelas crianças. Em condições normais das nossas vidas, o acesso aos telemóveis, tablets e videojogos deverá ser muito racionalizado, principalmente nas crianças mais pequenas, mas temos de ser realistas, e sobretudo flexíveis nos tempos em que vivemos. Nós somos o exemplo que as crianças seguem naturalmente. Como dizer a uma criança que deve ficar limitada a meia hora, quando o nosso quotidiano implica um número tão grande de horas ligado a estas plataformas? O bom senso deve imperar e, principalmente, a noção de que podemos e devemos promover outras atividades junto das nossas crianças.

Quais as estratégias para prevenir estados emocionais e psicológicos patológicos? Há o risco de surgirem? Quais?

O risco existe, sim. A irritabilidade, a ansiedade, o nervosismo instalam-se nas crianças e tanto mais quanto os adultos à sua volta experienciarem esses estados de espírito. A patologia psiquiátrica nos adultos é muito prevalente, havendo alguma tendência a surgir exacerbações nestes contextos. Confinamento, isolamento, incertezas, diminuição ou perda de rendimento económico, trabalho em condições adversas (locais / horários) afetam as nossas rotinas, e fazem com que tenhamos de desenvolver estratégias para sair da nossa "zona de conforto" e nos adaptarmos às novas condicionantes, o que pode não ser linear para todos. A prevenção assenta em tentar manter algumas rotinas, e criar outras novas, em manter-se ocupado e ocupar as crianças, em ser criativo, reinventando tarefas e modos de as executar, em falar com os familiares e amigos através de telefone, redes sociais, plataformas informáticas ou em levar o animal de estimação à rua por períodos curtos.

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