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Confinados e a desconfinar: os casos de Paredes e Leiria

Confinados e a desconfinar: os casos de Paredes e Leiria

No dia em que o país passa, pela primeira vez, por um recolher obrigatório a partir das 13 horas no sábado e domingo, o JN foi conhecer as realidades de Leiria e Paredes, uma cidade com poucas restrições e outra no coração do furacão covid-19 no país.

"Estou a ver as pessoas mais assustadas e a cumprir mais. Podia-se ter evitado muita coisa". O lamento é de Conceição Sousa, de 67 anos. A moradora de Paredes passou os primeiros três meses da pandemia fechada em casa e antes de ser obrigatório usar máscara na rua já ela o fazia. "Temos mesmo de ter medo. Isto está muito mau e estou assustada. Tenho sabido de muita gente de cá a falecer de covid", conta, enquanto aguarda pela filha, à porta de uma mercearia.

Paredes é um dos 191 concelhos com elevado risco de contágio de covid-19 e um dos que têm maior incidência de casos na zona Norte. Desde 9 de novembro, quando entrou em vigor o estado de emergência, que está sob medidas mais restritivas, a par com outros 120 municípios do país.

Os seis concelhos do Vale do Sousa, onde o município se insere, têm sido dos mais afetados, o que, segundo relatos, gerou o caos no Hospital Padre Américo, em Penafiel, que sofreu um pico de 230 internamentos covid e teve de transferir dezenas de doentes.

Quem também se tem resguardado é Alcina Ferreira. "Concordo com estas medidas. A situação está a ficar fora de controlo", acredita a paredense. Sai apenas para levar os filhos à escola e fazer compras. Ontem, quebrou a regra e foi à padaria buscar um bolo de aniversário para o filho. "Vamos festejar só os quatro. Nem avós, nem padrinhos, nada. Temos evitado visitas", dá como exemplo, quando o Governo salienta que 68% dos contágios são em convívios ou ambiente familiar. "Tenho esperança de que vá melhorar, mas não acredito que vá ser tão cedo. Acho que vamos ter um 2021 muito longo", comenta.

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A situação tem criado dificuldades aos comerciantes. Separados por uma rua, Eduardo Dias e Ricardo Cunha, donos de uma padaria e de uma mercearia, vivem situações semelhantes. Os negócios tiveram quebras no primeiro confinamento e assistiram a uma retoma nos últimos meses. Mas outubro não trouxe boas notícias. As quebras na padaria têm rondado os 50%.

"Cá dentro, os clientes sentem-se seguros, lá fora têm receios. Nós estamos com medo do que aí vem, sobretudo em janeiro", refere Eduardo. "Nas últimas semanas, as pessoas estão assustadas", diz Ricardo, criticando a falta de informação sobre a realidade concelhia. "Os comerciantes podiam sensibilizar as pessoas", defende, falando da apreensão quanto a um futuro que não será "cor de rosa".

"Há que resistir"

Quem hoje vai fechar às 13 horas, cumprindo as medidas, é o restaurante, snack, gelataria e creparia de Maria João Xavier. A partir dessa hora, leva a casa. A rua está "cada vez mais deserta". "As pessoas procuram sobretudo para levar para casa. E temos feito algumas entregas ao domicílio, para as quebras não serem maiores", explica. Muitos dos clientes estão infetados ou em isolamento. "Famílias inteiras, aos cinco e seis", diz Maria, que não tem grande fé nos apoios do Governo. "Estes meses vão ser horríveis. A minha esperança é que melhore na primavera. Há que resistir até lá", conclui.

Amílcar Ferreira, 62 anos, caminha com um ar despreocupado na Praça Rodrigues Lobo, em Leiria, sem máscara. Reformado, integra um grupo de risco, pois só tem um pulmão e é doente oncológico. Contudo, diz que não usa máscara porque anda sempre sozinho e não vive com mais ninguém. "Tenho-a aqui", diz, enquanto aponta para o bolso do casaco. "Fiz o teste ontem [anteontem] e deu negativo".

Atento às notícias, Amílcar considera que, apesar de ver sempre as pessoas de máscara, é inevitável que Leiria entre na "lista negra" dos concelhos onde as medidas do estado de emergência são mais restritivas. "Se assim for, não saio de casa", garante. "Tenho medo de apanhar qualquer coisa e ir desta para melhor", justifica. "Ando sempre por aí à noite, e só vejo ajuntamentos nos cafés da Praça e no do Jardim [Luís de Camões]", conta ao JN.

Esse é um motivo de preocupação para Abel Lopes, 59 anos, proprietário de um restaurante numa das transversais da Praça Rodrigues Lobo. "Veem-se as esplanadas a abarrotar e a malta toda junta sem máscaras, ao fim do dia e à noite", assegura. "Ninguém liga a nada e não há policiamento", denuncia.

Questão de sorte

Abel acredita que o facto de Leiria ser uma "bolha" é apenas uma "questão de sorte". Não esconde, no entanto, a satisfação por poder continuar a ter o restaurante aberto, pelo menos, nos próximos dois sábados. "Por pouco movimento que haja, é sempre melhor estar aberto do que fechado", observa. O impacto da pandemia tem-se sentido, sobretudo, ao jantar. "Servia 50 refeições e agora sirvo cinco ou seis."

Já a venda de chapéus na loja de Ana Moreira, 49 anos, quase não foi afetada pela covid-19. A lojista da Rua Direita destaca, por outro lado, o civismo das pessoas. "Algumas já usavam máscara, mesmo antes de ser obrigatório, até porque a rua é estreita e há aqui muitas ruelas", explica. "Leiria é uma cidade calma e, à noite, não se veem grandes aglomerados de pessoas, nem tanto trânsito", acrescenta.

Jovens "invencíveis"

José Graça, 19 anos, ficou surpreendido por Leiria não ter sido incluída na lista de concelhos de risco e enfatiza o impacto positivo para a economia. Apesar de constatar que se veem mais pessoas de máscara na rua, assume que os jovens nem sempre seguem as normas da Direção-Geral de Saúde. "A maior parte dos miúdos, como sabem que isso não os afeta, não se importam", justifica. "Pensamos que somos invencíveis."

Ana Virgolino, 51 anos, duvida da veracidade dos casos de covid-19 em Portugal e em Leiria. "Devíamos estar todos fechados em casa e só ir à rua quando precisássemos", defende. "Mais semana, menos semana, Leiria também vai entrar nessa lista", prevê . "Dantes, o comércio também fechava ao sábado e ninguém morria por isso. Obviamente que não se pode fechar tudo, por causa da economia, mas tem de se encontrar outras soluções e de reinventar os negócios", sublinha Ana.

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