Covid-19

Confinamentos deixaram 15% dos doentes sem cirurgia oncológica

Confinamentos deixaram 15% dos doentes sem cirurgia oncológica

Estudo mundial revela atrasos significativos nas operações dos pacientes com cancro e potencialmente mais mortes. Médica portuguesa que faz parte da equipa de investigação pede planeamento para antecipar o próximo período de stress.

Um em cada sete (15%) doentes oncológicos teve a sua cirurgia cancelada durante os confinamentos impostos pela covid-19. As conclusões são de um estudo internacional, publicado no The Lancet Oncology, no qual Portugal participou com dados de 15 hospitais relativos a 435 doentes.

"Portugal está no grupo dos países que teve medidas mais restritivas de confinamento, pelo que os dados que indicam que 15% dos doentes oncológicos não foram submetidos a cirurgia são reprodutíveis para a realidade nacional", assegura, ao JN, Joana Simões, médica interna do Hospital Garcia de Orta, que faz parte da equipa de coordenação do estudo.

Financiado pelo Instituto Nacional de Investigação em Saúde (NIHR), o COVIDSurg foi liderado por especialistas da Universidade de Birmingham e contou com a colaboração de quase cinco mil cirurgiões e anestesistas de todo o mundo que analisaram dados dos 15 tipos de cancro sólido mais comuns em 20 mil doentes de 466 hospitais de 61 países.

Os investigadores compararam cancelamentos e atrasos antes da cirurgia do cancro durante os confinamentos com os períodos em que houve apenas restrições ligeiras. Durante os confinamentos completos, 15% não recebeu a sua cirurgia programada numa mediana de 5,3 meses após o diagnóstico - todos com uma razão relacionada com a covid-19 para não operar. No entanto, durante períodos de restrição ligeira, a taxa de não-operação foi muito mais baixa (0,6%).

Num dos primeiros estudos que mediram diretamente estes efeitos, os investigadores mostraram que os confinamentos levaram a atrasos significativos na cirurgia oncológica e potencialmente mais mortes por cancro. "Estas poderiam ter sido evitadas se as operações tivessem prosseguido a tempo", referem.

Por isso, pedem uma "grande reorganização global durante a recuperação da pandemia para fornecer vias cirúrgicas eletivas protegidas e camas de cuidados intensivos que permitirão que a cirurgia continue em segurança". Investir na capacidade de "aumento" para futuras emergências de saúde pública é outra prioridade.

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Em Portugal, é preciso "planeamento mais atempado e centralizado da gestão de lista de espera para cirurgias oncológicas", refere Joana Simões, lembrando que a pandemia foi um fator de stress muito importante, mas não é o único. Os períodos de gripe e a falta de recursos nos blocos, como anestesiologistas, são outros fatores que levam ao adiamento de cirurgias.

Para a médica, nestes períodos de pressão, é necessário reservar camas em UCI e internamento, bem como horas de bloco operatório "porque estes doentes são prioritários".

Por outro lado, "as administrações hospitalares devem ter um conhecimento profundo dos doentes que têm em lista de espera e tem de haver uma reorganização inter-hospitalar que permita redirecionar os doentes, de forma a serem operados atempadamente", acrescenta Joana Simões.

Evitar mais danos no futuro

"Embora os confinamentos sejam fundamentais para salvar vidas e reduzir a propagação do vírus, garantir a capacidade de uma cirurgia oncológica eletiva segura deve fazer parte do plano de todos os países para garantir a saúde contínua em toda a população", refere James Glasbey, da Universidade de Birmingham, e coautor do estudo.

"Para evitar mais danos durante futuros confinamentos, temos de tornar os sistemas em torno da cirurgia eletiva mais resilientes - protegendo as camas de cirurgia eletiva e o espaço de bloco cirúrgico, e garantir recursos adequados para o aumento da capacidade em períodos de elevada pressão no hospital, seja a covid, a gripe ou outras emergências de saúde pública", acrescentou.

O estudo revelou ainda que os doentes mais vulneráveis aos efeitos dos confinamentos foram os dos países de baixo rendimento. Os doentes neste ambiente estavam em maior risco de cancelamento, apesar de serem mais jovens e terem menos comorbilidades.

Os investigadores analisaram dados de doentes adultos que sofrem vários tipos de cancro, incluindo colorretal, esofágico, gástrico, cabeça e pescoço, torácico, fígado, pâncreas, próstata, bexiga, renal, ginecológico, peito, sarcoma de tecido mole, sarcoma óssea e malignidades intracranianas.

A equipa acredita que estes dados podem ajudar a informar os governos quanto às decisões de prolongamento ou redução de restrições.

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