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Costa junta aparelho e independentes

Costa junta aparelho e independentes

António Costa tinha o elenco preparado. Terça-feira, ao início da tarde, pouco depois de ter sido recebido por Cavaco Silva e indigitado primeiro-ministro, o líder do PS fez chegar a Belém a lista de ministros que deverão integrar o XXI Governo constitucional, cuja data de tomada de posse não foi ainda divulgada pela Presidência da República.

Há um ministério novo - Planeamento e Infraestruturas, ao qual caberá a gestão dos fundos europeus -, várias surpresas, muitos regressos, dez estreias e "uma combinação clássica entre a seleção de independentes e os políticos profissionais do PS que constituem o núcleo duro de Costa", sintetiza, ao JN, António Costa Pinto. No conjunto, afirma o politólogo, "não se vislumbra qualquer reflexo do acordo do PS com a Esquerda".

São 17 nomes (mais um do que no Executivo derrubado de Passos Coelho), dos quais apenas três são mulheres. Francisca Van Dunem, 60 anos, angolana e independente, com extenso trabalho na luta contra a corrupção, é o grande trunfo do novo Governo. Considerada "a maior surpresa e a mais interessante", está ligada ao Ministério Público há trinta anos, foi procuradora-geral distrital de Lisboa nos últimos oito, e é considerada exímia na Justiça, pasta que agora irá tutelar.

No rol de regressos está o pai de uma das mais importantes reformas da Segurança Social, posta em prática entre 2005 e 2009. Vieira da Silva volta ao Governo e à pasta que já fora sua, a do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Augusto Santos Silva, que já foi ministro quatro vezes, estreia-se nos Negócios Estrangeiros, onde deverão ficar os Assuntos Europeus, circunscritos a uma secretaria de Estado, ao contrário do que Costa anunciara que queria.

Ana Paula Vitorino, secretária de Estado dos Transportes no primeiro mandato de José Sócrates, é promovida a ministra do Mar, tutela que Costa decidiu separar da Agricultura e que entregou ao também repetente Capoulas Santos.

O PS - que não anunciou oficialmente os nomes, embora rapidamente tenham sido vertidos para a comunicação social - divulgou apenas três secretários de Estado: Mariana Vieira da Silva, filha de Vieira da Silva e uma das economistas que prepararam o programa macroeconómico do PS, será adjunta do primeiro-ministro; Pedro Nuno Santos, que integrou o grupo restrito que acompanhou a negociação dos acordos com a Esquerda, ganha proeminência nos Assuntos Parlamentares. Em mãos, já admitiu, terá a "exigente" tarefa de fazer pontes permanentes com os parceiros (BE, PCP e PEV) que apoiam o Governo de minoria. E o advogado Miguel Prata Roque, que foi adjunto do ministro dos Assuntos Parlamentares no primeiro governo Sócrates, fica na presidência do Conselho de Ministros.

Entre os estreantes, destacam-se Azeredo Lopes, que deixa de ser porta-voz de Rui Moreira na Câmara do Porto para assumir a Defesa; Matos Fernandes, que também deixa o Porto e a administração da empresa municipal das Águas para tutelar o Ambiente; Tiago Brandão Rodrigues, cientista que aos 38 anos deixa a investigação no Reino Unido para assumir a Educação (pasta que também surge autonomizada da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior); e João Soares, que já tinha sido quase tudo na política, mas nunca ministro. Fica com a Cultura, pelouro que já assumira na década de 90, quando foi presidente da Câmara de Lisboa.

Sem alternativa, Cavaco, que até agora não falou ao país, optou por um curto comunicado no site da Presidência, em que usa três nuances de linguagem que não passam despercebidas. Afirma que tomou "devida nota" - e não boa nota - da resposta do líder do PS às dúvidas por si suscitadas; chama "documentos" aos acordos do PS; e não usa o verbo indigitar, mas o sucedâneo "indicar". A decisão surge 51 dias depois das eleições.