Saúde Pública

Covid-19: o evolver de uma pandemia

Covid-19: o evolver de uma pandemia

Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e membro do Conselho Nacional de Saúde, escreve sobre o coronavírus Sars-Cov-2 e a doença Covid-19.

Doenças infeciosas emergentes - o que são?

Uma publicação pioneira de 1992, da responsabilidade da Comissão para as Ameaças Microbianas Emergentes do Instituto de Medicina dos Estados Unidos da América, definiu as doenças infecciosas emergentes como patologias clinicamente distintas e potencialmente muito graves cuja ocorrência em humanos podia resultar de variadas circunstâncias: a identificação novamente de uma doença já conhecida mas que tinha sido considerada extinta, o reaparecimento de agentes habituais cuja disseminação estava controlada mas aos quais uma mudança ambiental fornecia uma nova oportunidade epidemiológica, ou o surgirem pela primeira vez associadas à introdução de um novo agente infecioso. Este é o caso da doença identificada pela primeira vez em humanos em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China, e que resulta da infeção por um novo coronavírus, o SARS-COV-2, tendo a Organização Mundial da Saúde designado esta doença emergente como COVID-19 e assim se iniciando o processo de resposta sanitária e social ao que começou por ser um surto localizado, posteriormente uma epidemia de grandes dimensões e atualmente designada com o estatuto de pandemia.

Dos vírus às pessoas: qual o caminho?

Embora as caraterísticas do agente infeccioso desempenhem um papel determinante, no decurso de qualquer doença infecciosa emergente há outros fatores causais de enorme importância, em particular quando tem de se explicar a relação do agente com o hospedeiro humano e mais em particular a transmissibilidade (como um doente leva à infeção de outro), a prevenção (como se evita que a infeção ocorra) e a gravidade da doença, medida pela proporção de óbitos entre infetados (a letalidade).

Se nos preocupamos em conhecer a origem do vírus, particularmente as circunstâncias em que ultrapassou a sua relação com um hospedeiro habitual (muito provavelmente um morcego), encontra outro hospedeiro também animal que o aproxima dos humanos (poderá ser o pangolim) e finalmente atravessa a chamada barreira de espécie e infecta um humano de modo adequado a nele sobreviver pelo menos o tempo suficiente para passar a outro e a outro.

Importa conhecer bem qual o caminho que assegura a continuidade dessa transmissão: de outro modo não sabemos como intervir para interromper essa cadeia. Agora que a infeção se estabeleceu nas populações humanas, que em alguns países a transmissão já ocorre na comunidade sem capacidade de identificarmos claramente a circunstância ou a pessoa que esteve implicada na transmissão, e quando não temos à nossa disposição - nem vamos ter em tempo útil - uma vacina que possa modificar a dinâmica da pandemia, só podemos interromper o caminho com medidas continuadas de higiene, altamente eficazes se respeitadas com um cuidado sem tréguas: lavagem de mãos, a limpeza continuada das superfícies que impede que as nossas mãos se conspurquem e possamos levar os vírus às mucosas, a etiqueta respiratória - não tossindo ou espirrando sobre os outros, guardando a distância física adequada. Coisas tão simples que parece impossível serem eficazes num tempo de alucinante tecnologia. Mas são, e podem salvar-nos individualmente e como sociedade.

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Das pessoas à sociedade: como nos organizamos?

A infeção emergente, a COVID-19, representa um desafio à nossa inteligência coletiva, à nossa capacidade de organização, à nossa vontade de não perder um desafio contra o desconhecido armados com a melhor ciência que o tempo acumulou, aquela que sabemos criar sobre o correr dos acontecimentos, que devemos partilhamos, deixando expressar-se a sabedoria da multidão, acolhendo a participação das pessoas interessadas que todos somos e tanto contribui para encontrar as respostas certas.

Agora que a doença está em Portugal como vamos reagir? Deixamos que o medo desse desconhecido emergente nos paralise, nos feche sobre nós e contra os outros, nos encerre o nosso mundo, numa forma outra de morrer? Ou, sabendo que a preocupação, normal e saudável na dimensão que nos faz agir e defender, nos deve tornar cautelosos e prudentes, organizando serviços de saúde que respondam com grande eficácia, fazendo os nossos planos de contingência, evitando até o limite o dispensável mas garantindo que o essencial da vida em comunidade permanece? Neste momento, quando temos uma vez mais que enfrentar uma pandemia potencialmente muito grave, com o seu rol inevitável de sofrimento e mortes, devemos lembrar que é nas nossas mãos - prevenindo e tratando com as armas de que dispomos - que está a solução para conter os casos e minimizar os danos. Como sempre! E por isso me inclino perante aqueles que sempre sabem estar presentes e solidários nos momentos mais difíceis. E com coragem não fogem nomeadamente das epidemias (ou de outras grandes catástrofes) deixando o melhor que de humano há no humano, solidários com a vida.

Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto

Conselho Nacional de Saúde

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