Pandemia

Deitam contas à vida para sobreviver ao confinamento

Deitam contas à vida para sobreviver ao confinamento

O novo confinamento veio aumentar a inquietação daqueles que têm negócios que continuam abertos, mas que têm de cumprir regras sanitárias apertadas, que acabam por afastar muitos clientes. Quase um ano depois do país ter fechado pela primeira vez, o JN foi a quatro locais onde já tinha estado em março conferir as preocupações de quem sabe que tem pela frente pelo menos um mês com muito menos gente a circular pelas ruas. À exceção de um quiosque em Odivelas, todos se mostram pessimistas e tentam fintar a crise, numa luta desesperada pela sobrevivência.

Mercearia ficou sem os clientes ganhos no confinamento de março: perderam "o medo" aos supermercados.

O movimento cresceu e o negócio floresceu na "Flôr Vilanovense", quando o país confinou pela primeira vez. Alcina e Firmino Almeida até passaram a entregar ao domicílio as encomendas que lhes faziam por telefone, juntamente com o pão, o queijo e o fiambre que, "por gentileza", compravam na padaria ao lado. Até que em maio, os clientes começaram a desaparecer. Hoje, mesmo num novo confinamento, continuam sem dar sinais de vida.
"Desta vez, não vamos estar feitos malucos a abastecer-nos, até porque agora os supermercados não vão ter restrições de horário. Naquela altura, as pessoas não sabiam o que era o vírus, tinham medo de ir para os supermercados e vieram para as mercearias", sublinha Alcina, confessando que chegou a pensar que tinha "angariado mais uns clientezinhos". "Quando reabriram os centros comerciais, nunca mais vieram nem telefonaram. Viraram-nos todos as costas, foi tudo embora. O povo é ingrato...", lamenta a proprietária, com uma indisfarçável dor na alma.

O aumento das vendas durante a primeira vaga da pandemia não se refletiu na faturação em 2020 - "foi um ano normal, nem bom nem mau". Agora a perspetiva é pior: "No ano passado, as pessoas ainda tinham dinheiro no bolso e estavam fiadas nos apoios do Governo. Agora, estão a ficar sem rendimentos, sem emprego, sem ajudas".

A contenção nota-se na hora das compras: "Perguntam sempre o preço, racionam muito os produtos", acrescenta Firmino, enquanto mostra as várias relíquias que guarda a centenária mercearia na Rua Soares dos Reis. "A mais antiga de Gaia", como fez questão de sublinhar, logo à entrada, a matriarca da família Almeida, que entrou em 2021 "sem sorte nenhuma": os dois filhos gémeos estão entre as centenas de lesados pelo encerramento da escola de condução A Desportiva. "Este ano começa bem", ironiza.

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Proprietário de padaria espera que cheguem novas ajudas do Estado para enfrentar mais uma quebra nas receitas

São 10 horas de sábado e à porta da padaria Benita, em Vila Nova de Gaia, já se forma uma fila, que nunca tem menos de dez pessoas. No interior, só podem estar três em simultâneo. "Voltamos ao mesmo, a ser obrigados a ter um funcionário a fazer de porteiro, para explicar que a entrada é permitida a quem compra para levar para casa e o serviço de cafetaria tem de ser à porta. Claro que, depois, há quem pergunte se há clientes de primeira e de segunda. Ainda ontem ouvi isso: "porque é que ele pode entrar e eu não?"", explica o dono, Paulo Cerdeira.

As vendas na Benita, aberta há 47 anos em Soares dos Reis, ressentiram-se logo no dia um do reconfinamento. Impedidos de servir à mesa ou ao balcão, "a quebra é de mais de 50%", garante o dono. "Foi como em março e abril. Depois, andou na casa dos 20 e tal e, em dezembro, até por ser Natal, já se notou alguma recuperação. Mas ontem, já ultrapassou os 40%", observa.

Antes da pandemia, Paulo empregava 13 pessoas, hoje são 11 - um terminou o contrato, outro saiu por mútuo acordo. A empresa esteve em lay-off parcial até junho: "Tive de reduzir o pessoal. E agora estou a fazê-lo outra vez, a antecipar as eventuais ajudas de um lay-off a que, de certeza, infelizmente, não vou conseguir fugir. Estou a contar que as medidas de apoio sejam similares e até já alterei os horários dos funcionários. Não faz sentido estarem aqui a olhar uns para os outros. Neste momento, estão três ao balcão e metade do tempo de braços cruzados".

As ajudas do Estado "minimizaram qualquer coisa, mas suficientes nunca são": "Se olharmos só para o nosso lado, é natural que queiramos sempre mais, mas temos de olhar para os outros setores e sabemos que está a ser feito um esforço muito grande, não há receita e o custo aumenta brutalmente. O mais lógico não seria só suportar 70% do salário, mas a totalidade. Mas é melhor que nada".

Proprietário de oito gasolineiras vendeu menos 1,2 milhões de litros num ano devido ao teletrabalho e à redução de passeios

O rombo não foi tão grande como esperava, mas João Almeida ainda contabilizou no ano passado prejuízos de 17% no negócio das oito gasolineiras que tem na região de Aveiro. Em março, no início da pandemia, o empresário, de 62 anos, teve menos clientes porque isso era sinal, explicava ao JN, que as pessoas estavam a cumprir o confinamento.

Assim foi. Teve muito menos serviço "em março, abril, maio e dezembro", diz olhando para as contas. Os tais 17% significaram "menos um milhão e duzentos mil litros de combustível vendidos em 2020". A explicação, no pensamento de João de Almeida, está no teletrabalho e nos passeios. "Muitos deixaram de usar o carro para ir para o serviço e as famílias saíram muito menos de casa ao fim de semana para espairecer".

O quadro só não foi pior devido ao tabaco, a segunda fonte de receitas das suas gasolineiras. João Almeida revela que no primeiro mês as vendas aumentaram 40%. "Beneficiamos dos quiosques e tabacarias terem fechado", justifica. Nos meses seguintes, a procura por cigarros "aumentou menos".
Apesar da redução de receitas, o empresário que tem estações de serviço em Aveiro, Albergaria, Vagos, Murtosa e Oliveira de Azeméis, conseguiu manter os 27 funcionários. E espera fazer o mesmo este ano, mas para isso só vê uma solução. "Trabalhar com redução de horário e que metade das férias sejam gozadas nestes períodos de confinamento, de forma a que no verão não tenha de contratar pessoal para garantir as férias dos funcionários", avança ao JN.

A redução de horários passa já por fechar ao fim de semana às 14 horas (em vez das 22h), "exceção talvez para as bombas de Cacia", e durante a semana vai abrir mais tarde (às 7h, em vez das 6h) e fechar mais cedo (19h e não 22h). "A situação vai ser avaliada ao dia e a qualquer altura pode haver alterações", realça Almeida, sem esconder o pessimismo pelo que aí vem.

Num quiosque dos arredores de Lisboa vendem-se mais jornais e revistas durante os períodos de confinamento

Há um ano, no primeiro confinamento por causa da pandemia da covid-19, no quiosque Pinheiro, em Odivelas, esgotaram os jornais. Com mais pessoas em casa em teletrabalho, José Rodrigues, o proprietário, não sentiu uma quebra nas vendas, pelo contrário. Por estes dias, em que foi decretado novamente o recolhimento domiciliário, voltou a sentir o mesmo. "As pessoas cansam-se de ver televisão e vêm comprar mais jornais e revistas de passatempos, como sopa de letras, sudoku, cruzadex, entre outras. Querem distrair-se de outra forma", explica.

Ao início da tarde de sexta-feira, o primeiro dia do segundo confinamento, foram vários os moradores de Odivelas que não deixaram de sair para comprar uma revista ou um jornal, tabaco, raspadinhas e café. "No primeiro confinamento, ao final de quatro a cinco dias, já vinham cá muitas mais pessoas. Hoje de manhã, também já tive mais clientes que o habitual", conta.

Eugénia Miranda, também proprietária do espaço, notou mais procura pelo café. "Algumas pessoas acabam por vir aqui tomar café porque há restaurantes e bares fechados. O aumento das vendas do tabaco é o que se sente mais no confinamento", diz.

O quiosque Pinheiro esteve sempre aberto, desde o início da pandemia, e com a afluência de clientes não precisou de pedir apoios financeiros ao Estado. Sempre que há restrições à circulação até surgem novos clientes. "O ano passado apareceram mais pessoas à procura do JN. Tenho um cliente que começou a comprar o jornal porque diz que é mais credível e a linguagem mais acessível", conta.

As mesas da esplanada, que deixou de funcionar há um ano, continuam à entrada do quiosque e servem de barreira para os clientes manterem o distanciamento. "Mantenho o mesmo sistema para evitar os contágios e chamo a atenção das pessoas que aparecem sem máscara", conclui José Rodrigues.

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