Entrevista

Derrocadas. "Estamos na presença de um dos riscos mais comuns em Portugal"

Derrocadas. "Estamos na presença de um dos riscos mais comuns em Portugal"

Renato Henriques, geólogo da Universidade do Minho, falou ao JN sobre o perigo das derrocadas, "um dos riscos mais comuns em Portugal", no dia em que duas pessoas morreram soterradas na sequência de um deslizamento de terras em Esposende.

Que causas podem estar na origem das derrocadas?

Este tipo de fenómenos acontece mais vulgarmente quando temos terrenos inclinados e com materiais que têm propensão para desagregar. Ou são materiais com partículas muito pequenas e que se movem em fluxo, ou noutros casos são blocos que se desprendem porque há fracturação da rocha. São coisas que têm a ver com a própria geologia, por fatores climáticos, deflagrações sísmicas ou outros eventos semelhantes. Às vezes, basta um dia ventoso em que as plantas estejam a fazer pressão sobre as rochas para isso acontecer.

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Portanto, o inverno é mais propício a esses riscos?

Sem dúvida. A maioria dos materiais geológicos é muito sensível ao excesso de humidade, as partículas comportam-se de maneira diferente, há alguma solifluxão do solo e há propensão para deslizar. Estamos na presença de um dos riscos mais comuns em Portugal, porque tem a ver com a morfologia do próprio território, com zonas com algumas vertentes inclinadas e materiais desagregáveis. Sempre que temos uma zona de inclinação, o declive é dos primeiros aspetos que começamos a estudar.

Como é que se podem prevenir estes fenómenos?

A prevenção é feita caso a caso. Lidar com um movimento de massa, fluxo de detritos com partículas do mesmo tamanho, como argila, é diferente da queda de um bloco. A prevenção tem que ser diferente. Mas a melhor prevenção de todas é estudar previamente o território onde se vão implementar construções e evitar, em primeira análise, que elas sejam construídas. Faz parte de um bom planeamento do território, acautelarmos a propensão para este tipo de fenómenos e dimensionar o território de maneira a evitá-las. Uma vez já criadas as fragilidades, tem que se ver caso a caso e pode envolver desmonte controlado ou contenção com todas as possibilidades de materiais. Há determinadas situações em que é muito difícil sequer remediar o que está feito. A última solução, que ninguém deseja, é tirar pessoas e bens das zonas de risco.

Está a dizer que há certas construções que não deviam ser aprovadas?

Às vezes, não se faz o estudo multidisciplinar que estas situações exigem. Uma construção não é só dimensionada no âmbito da engenharia, da arquitetura ou planeamento urbanístico, deve ser acautelada a questão do risco. É muito importante que, qualquer que seja a dimensão da construção, seja acautelado um estudo prévio sobre a componente de risco.

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