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Jorge Sampaio

Dez anos de uma presidência onde a mediação era possível

Dez anos de uma presidência onde a mediação era possível

Jorge Sampaio indigitou e depois demitiu um primeiro-ministro, assistiu a dois referendos, abriu o conceito de presidência temática e visitou todos os concelhos do país.

A dissolução do Parlamento, que deitou por terra o Governo de Santana Lopes, terá sido o acontecimento político mais notório dos dez anos de presidência de Jorge Sampaio. Mas não foi o único. Dois referendos chumbaram a legalização do aborto e a regionalização (ele, que era um regionalista convicto), as presidências temáticas levaram o foco mediático a problemas concretos do país e uma catadupa de vetos contrabalançou as "coligações negativas" da oposição contra o Governo minoritário de António Guterres. Vetos, lembra o então chefe da Casa Civil, João Serra, nunca revertidos graças à capacidade de Sampaio para criar consensos. A presidência, diz, foi um espaço "onde a mediação era possível".

Jorge Sampaio chegou à Presidência da República com a experiência de autarca na bagagem. A gestão da Câmara de Lisboa - com apoio do PCP e secundado por João Soares, filho de Mário Soares, que o antecedeu no palácio de Belém - influenciou a forma como conduziu o país durante uma década. "Uma presidência próxima dos cidadãos, preocupada com o desenvolvimento regional e com o papel motor das cidades", resume João Serra. Dez anos foram suficientes para passar por todos os concelhos do país, alargando a notoriedade que tinha conquistado na capital.

Na corrida contra Cavaco Silva, em 1996, ganhou com 53,91% dos votos. Era, na altura, um improvável vitorioso. No prefácio do livro "Confidencial. A Década de Sampaio em Belém", do antigo assessor de imprensa João Gabriel, o historiador José Pacheco Pereira escreve que Sampaio "tinha tudo contra si". E elenca "um perfil britânico num país latino", o falar antigo e sisudo, a irritação fácil e a "intransigência moral" contrária aos "costumes partidários do vale tudo". Ilustrativo da irritabilidade que trazia à mão é um jantar, na primeira campanha eleitoral, na Figueira da Foz. João Gabriel conta como Sampaio se recusou a discursar frente aos apoiantes que, minutos antes, tinham começado a refeição sem esperar pelo fim do discurso da mandatária.

Era, apesar disso, aberto à discussão franca e, se fosse caso disso, a deixar-se persuadir por argumentos contrários aos seus. João Serra testemunhou inúmeras ocasiões em que era o primeiro a sujeitar a sua opinião ao escrutínio dos assessores. Sampaio ouvia, mas no final, a decisão era solitária. Foi-o na indigitação de Santana Lopes como primeiro-ministro, contra as pressões socialistas que queriam eleições antecipadas, na sequência da demissão de Durão Barroso; e voltou a sê-lo quatro meses depois, quando demitiu Santana Lopes, ao dissolver a Assembleia da República.

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As relações entre os antigos chefes de Estado e de Governo nunca se amenizaram e, em 2017, a publicação de uma biografia de Sampaio voltou a espoletar uma reação violenta de Santana Lopes. Na altura, as legislativas antecipadas mostraram que o governo de coligação PSD/CDS não tinha o apoio dos portugueses. A 20 de fevereiro de 2005, o Partido Socialista elegeu 121 deputados, bem acima do mínimo de 115 necessário para dar uma maioria absoluta ao primeiro-ministro seguinte, José Sócrates.

Apelo por Timor a Clinton à margem de funeral

Em julho de 1999, um mês antes do referendo à independência de Timor-Leste que desembocaria na chacina de timorenses pelo exército indonésio, foi a enterrar o Rei Hassan II, de Marrocos. O funeral foi acompanhado por dezenas de chefes de Estado e de Governo, incluindo o presidente norte-americano, Bill Clinton. Jorge Sampaio, que há anos mantinha uma relação cordial com Hassan II, também esteve presente e aproveitou a oportunidade para pedir a Clinton, em pessoa, o apoio dos americanos a uma intervenção internacional em defesa de Timor-Leste. A história é recordada por João Serra, então chefe da Casa Civil do presidente da República. Serra acompanhou Sampaio na segunda visita a Timor-Leste, organizada para marcar o segmento final do segundo mandato, tal como a ida a Macau. A primeira visita foi em 2002, logo após a independência que tinha sido decidida por 78% dos timorenses, em referendo.

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