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Diagnóstico de novos casos de cancro com diminuição de 85%

Diagnóstico de novos casos de cancro com diminuição de 85%

Medo de ir ao médico explica quebra que está a deixar oncologistas alarmados. Especialistas alertam que adiar consultas pode fazer baixar taxa de sobrevivência.

Os oncologistas estão alarmados com a quebra no número de novos diagnósticos de cancro. O receio de sair de casa, nesta fase da pandemia Covid-19, bem como a suspensão de milhares de consultas, estão a fazer com que muitos portugueses, perante sintomas e sinais suspeitos, adiem a ida ao médico e atrasem os diagnósticos de doenças. Está a acontecer em várias especialidades. No caso do cancro, adiar semanas ou meses um diagnóstico pode ter um custo grave: menos qualidade e tempo de vida.

Os números do grupo José Mello Saúde, que detém os hospitais CUF, e é o maior operador privado a diagnosticar casos de cancro, retratam uma realidade preocupante. Em março, verificou-se uma quebra de 85% no diagnóstico de novos casos de cancro face ao mês homólogo do ano passado. Em 2019, os hospitais e clínicas daquele grupo diagnosticavam em média 80 casos de cancro por semana. Muitos destes são depois seguidos nos hospitais públicos. Em março deste ano, aquele número desceu para 12 diagnósticos oncológicos por semana.

Reflexo na sobrevivência

"Há um medo generalizado na população e há doentes oncológicos que preferiram adiar consultas e tratamentos. Felizmente, não foi a maioria. Mas em relação ao número de novos casos a diminuição é geral no país", afirmou, ao JN, a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO). Ana Raimundo realça que o diagnóstico oncológico não pode ser adiado, pelo risco de prejuízos graves para o doente.

"A médio e longo prazo a diminuição destes novos casos refletir-se-á na sobrevivência dos doentes", salienta. A oncologista pede aos doentes que se encontram nesta situação que não se inibam de procurar respostas de saúde, nem que seja por telefone.

Os alertas chegam de todo o lado e a ministra da Saúde anunciou ontem que na próxima semana o Serviço Nacional de Saúde começará a dar resposta aos doentes "não Covid" (ler ao lado). Não tenham receio de usar o SNS, pediu.

Circuitos bem definidos

A preocupação da SPO é partilhada por Bárbara Parente, coordenadora Norte da CUF Oncologia. A quebra de 85% no número de novos casos só tem uma explicação: "São doentes que perante sinais e sintomas suspeitos não aparecem para fazer o diagnóstico porque estão com receio de ir aos hospitais", realça a pneumologista, assegurando que o medo não tem razão de ser. "Os hospitais organizaram-se, os circuitos estão bem definidos e não há contacto entre doentes Covid-19 e outros doentes", explica. No cancro do pulmão, em que o diagnóstico já é muitas vezes tardio, "duas ou três semanas de atraso podem significar a diferença entre ter a doença localizada ou generalizada". Nas melhores circunstâncias, fora deste contexto de pandemia, só 25% dos casos de cancro do pulmão são operáveis. "O doente que fica em casa pode perder o "timing" para ser operado", acrescenta.

Esta semana, o presidente do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro alertou, num artigo de opinião, que "no cancro o panorama é cada vez mais aterrador, pois, para além de uma maior incidência, há uma enorme dificuldade na acessibilidade em todos os campos - primeiras, consultas, diagnóstico, tratamentos e follow up". Vítor Veloso teme que descurar a luta e os pequenos sucessos dos últimos anos possa levar a um retrocesso de vários anos.

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