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Pandemia

Do medo à desconfiança institucional: os 1001 gatilhos das conspirações covid-19

Do medo à desconfiança institucional: os 1001 gatilhos das conspirações covid-19

Criação propositada em laboratório, estratégia para vender vacinas ou implantar chips com vista ao domínio do mundo. Há um "buraco negro" sobre a covid-19 que atrai "tudo o que não se justifica ou não surge explicado de modo transparente".

De um dia para o outro, medo. O contraste gritante entre o mar de informação que nos chega, diariamente, através de várias plataformas, e a ausência da resposta, aparentemente simples, que todos procuram: de onde surgiu este outro vírus? Cansaço. Saturação. Necessidade quase física de arranjar uma explicação para o que se está a passar. Um "bode expiatório" que consiga camuflar o arrepio do desconhecido.

Este campo de batalha - onde a emoção leva a melhor sobre a razão - foi o gatilho para a proliferação de várias teorias que, sem qualquer base científica, contaminaram as redes sociais. Como uma doença. "A mim não me enganam! A covid-19 foi criada em laboratório para matar velhinhos", ouve-se por aí. É a ideia-base de uma das campanhas de desinformação mais comentadas: a de que o Sars-CoV-2 foi deliberadamente criado. Diz quem acredita que é para reduzir a população mundial para as farmacêuticas lucrarem com a venda de vacinas.

Há também quem defenda que a pandemia é apenas um plano de Bill Gates, criador da Microsoft e um dos homens mais ricos do Mundo, para manipular a população mundial. Como? Graças a um microchip introduzido no corpo humano através da vacina. Teoria que o filantropo, surpreendido, descreveu, em entrevista à Reuters, como "louca e diabólica".

Por outro lado, há quem associe a covid-19 à rede 5G (quinta geração das redes móveis), defendendo que as ondas de rádio emitidas por esta tecnologia provocam alterações no ser humano que o fazem sucumbir ao vírus. O resultado? Torres 5G incendiadas (por exemplo no Reino Unido) e dezenas de denúncias de técnicos de empresas de telecomunicações assediados durante o trabalho. Os conhecidos atores norte-americanos John Cusack e Woody Harrelson foram dois dos defensores desta ideia, levando os especialistas a recordar que a covid-19 surgiu também nos países onde o 5G não existia (caso de Portugal no início da pandemia).

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O aparecimento destas teorias não foi propriamente uma surpresa. "Historicamente estão associadas a momentos de crise e de grande vulnerabilidade coletiva", explicou ao JN a psicóloga Patrícia Lopes, realçando que, numa altura em que a informação é difundida com uma "rapidez fulminante", a triagem de estudos científicos "fica comprometida pela necessidade que todos temos de ter uma resposta imediata e simples a um fenómeno complexo".

"São teorias absurdas, muito alimentadas pelo modelo de negócio das redes sociais, que visa produzir um efeito que gere visualizações e likes", sublinhou também o sociólogo João Teixeira Lopes, notando que, num contexto de "incerteza e pânico", o ser humano sente gratificação emocional ao ver "confirmada" uma qualquer suspeita que possa ter tido. "E portanto, só absorvemos aquilo que achamos que confirma as nossas impressões", acrescentou ao JN.

Uma vez disseminadas, frisou, estas teorias encontram muitas vezes eco nas próprias "instituições políticas". "Recorde-se que, nos EUA, mais de 100 congressistas reencaminhavam mensagens delirantes do QAnon", afirmou, referindo-se ao movimento baseado na crença de que Trump luta para destruir uma "cabala global" encabeçada por pedófilos admiradores de Satanás.

Ao cocktail explosivo de medo, dúvida e "desconfiança generalizada em governos e lideranças institucionais" junta-se um pormenor que poderá ter sido "decisivo no processo de explosão das teorias da conspiração": o "Event 201". Um simulacro, de outubro de 2019, realizado por um conjunto de figuras ligadas ao Fórum Económico Mundial e à Fundação Bill e Melinda Gates sobre uma futura pandemia.

Segundo Pedro Costa, investigador e sociólogo na Universidade do Minho, "ainda que nada possa ter a ver com a situação, este acontecimento acabou por gerar perplexidade mundial devido à proximidade com o que acabamos por viver uns meses depois". "Caiu no buraco negro social das explicações, permitindo a ligação entre grupos económicos e governos à ideia de controlo global", explicou.

Ao poderoso efeito das redes sociais, o estudioso alia ainda "o excesso de informação sobre a pandemia" nos meios de comunicação social, "que tem gerado alarmismo contínuo e medo". "Ainda que, por vezes, a tentativa fosse a de precipitar cuidados redobrados com a situação, a verdade é que se caiu num exagero, senão numa paranoia, que está a afetar severamente a saúde mental e os níveis de ansiedade e irritação dos portugueses". Patrícia Lopes confirma-o, realçando que "a sensação de risco sempre presente e a exposição a notícias negativas (contágios e mortes)" levou os cidadãos a recorrerem mais aos psicólogos.

Além disso, acrescentou Pedro Costa, a "banalização do sensacionalismo" é outro fator potenciador destas teorias. "O facto de a própria OMS ter tido uma postura contraditória e errante durante muito tempo, com expressões dramáticas e sensacionalistas, conferiu direito, informalmente, a quem estava do outro lado", à boleia do mote: "se eles podem, que são instituições de respeito, nós também podemos".

Aspeto que realça "a responsabilidade acrescida das instituições e meios de comunicação atualmente". "As abordagens têm de ser acauteladas, caso contrário as pessoas começam a colocar tudo em causa. Inclusive a ciência e os cientistas".

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