S. João

Na linha da frente contra a Covid-19: do teste ao ventilador em apenas uma hora

Na linha da frente contra a Covid-19: do teste ao ventilador em apenas uma hora

Hospital com maior número de despistes de Covid-19 e casos tratados adaptou-se para responder à pandemia. Escalada súbita de sintomas afeta cada vez mais doentes.

Chegou de carro, com a família. Entrou na tenda onde é feita a primeira triagem no Hospital de S. João. Tosse e alguma falta de ar eram os sintomas que a octogenária apresentava. Às 11.29 horas de ontem. Uma hora depois, soavam os alarmes na zona laranja (doentes graves). Os níveis de oxigénio baixaram drasticamente. Era preciso fazer uma TAC. E transferir rapidamente a paciente para a Sala de Emergência, onde estão disponíveis todos os recursos de Medicina Intensiva para salvar vidas.

Situações como esta, em que o doente entra "razoável" e rapidamente descompensa, são muito frequentes em casos Covid-19 positivos, explica Cristina Marujo. A diretora do Serviço de Urgência (SU) do Centro Hospitalar e Universitário de S. João revela que muitas vezes o doente não apresenta queixas graves de falta de ar, mas a nível sanguíneo já é notória uma grande privação, pelo que a escalada de sintomas é muito mais súbita do que naqueles que não estão infetados com o novo coronavírus.

É um dos comportamentos do vírus que está a surpreender a comunidade médica a nível mundial e constitui um desafio adicional no combate a esta epidemia de contornos ainda tão desconhecidos, destaca Nelson Pereira, chefe de equipa do SU.

Os resultados do teste desta doente em concreto ainda não eram conhecidos, mas "as imagens da TAC mostram um padrão muito típico de Covid", nota a médica. O recurso a imagiologia no despiste da Covid, de que o S. João é pioneiro, confirma-se como uma mais-valia. Da sala da TAC a doente é imediatamente transferida para a Sala de Emergência, destinada aos casos mais críticos. A situação é complexa. Era urgente suplementar oxigénio com ventilador não invasivo para estabilizar as funções vitais.

unidade com mais casos

Com cerca de 150 doentes internados - dos quais mais de 40 na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) -, o S. João é, de longe, a unidade hospitalar, a nível nacional, com mais casuística: mais de 7500 testes realizados (mais de 1400 positivas) e 820 a serem seguidos em casa. E com a entrada da fase de mitigação e o incremento dos testes realizados, inevitavelmente, o número de infetados disparou.

Só no último fim de semana, foram testadas cerca de duas mil pessoas - 300 deram positivas para Covid. A rápida disseminação do vírus, que em menos de um mês já mina na comunidade, obrigou a uma reorganização dos serviços de saúde, e da sociedade. O S. João adaptou rapidamente os espaços e as equipas para responder à nova ameaça, explica Nelson Pereira.

era antes Covid e pós-CoviD

O internista de 49 anos não tem dúvidas de que a sua vida está irremediavelmente fraturada: há a era pré-Covid e a pós-Covid. O entretanto é um terreno pantanoso semeado de incógnitas e dúvidas.

"Foi preciso redefinir espaços, equipamentos e circuitos", sumariza. A Área Dedicada à Covid na Urgência, completamente isolada dos restantes espaços do SU, tem quatro polos distintos e uma separação muito clara entre áreas sujas (com maior risco de contaminação e em que os níveis de equipamento individual assemelham-se a de um astronauta) e limpas (onde o risco é menor e só as máscaras são omnipresentes).

A equipa que já estava dedicada ao SU é a artilharia, está na linha da frente no combate ao coronavírus. A retaguarda é assegurada nas enfermarias e na UCI, onde são cuidados os casos mais complexos. Dos restantes departamentos (a maioria com a atividade programada suspensa) foram deslocados profissionais que agora asseguram a urgência geral. A separação de doentes é uma estratégia para minorar o risco e que levanta dúvidas diariamente. Se um doente potencialmente Covid precisa de um procedimento cirúrgico, por exemplo, para onde deve ser direcionado? Ontem, essa questão levantou-se. Uma mulher da zona de doentes urgentes padecia de pneumotórax e era preciso drenar o ar da pleura (película que envolve os pulmões). Um ato que poderia ser realizado na designada Pequena Cirurgia da Urgência, mas que, como se trava de uma suspeita de Covid, obrigaria os profissionais fora da ADC a adotar medidas de proteção. Discutido o caso, o procedimento foi feito na zona Covid.

Mais uma vida oxigenada - como a da doente octogenária que se mantinha, ao fim do dia, estável nos Cuidados Intensivos.

Zona de triagem (tenda) - É aqui que tudo começa. Os doentes encaminhados pela linha SNS 24 ou outros serviços de saúde dirigem-se à zona de triagem, na tenda instalada junto à Urgência. Um enfermeiro faz o primeiro rastreio. Numa das 12 boxes (todas separadas) é feito o teste à Covid-19 com duas zaragatoas. Se os sintomas forem ligeiros, o doente vai para casa, onde espera, no prazo máximo de 24 horas, o resultado. Os negativos chegam por SMS. Os casos positivos recebem uma chamada do médico.

Zona de doentes intermédios (contentores) - Os doentes com sintomas moderados passam para a segunda área do circuito, onde são observados por um médico e podem fazer raio-X e análises clínicas. Esta área tem 16 boxes e 12 cadeiras para os doentes esperarem.

Zona de doentes graves (Urgência) - Os doentes considerados graves, que são de risco pela situação clínica prévia ou pela sintomatologia que apresentam, são encaminhados para esta zona, com capacidade para 23 camas e dotada de ecógrafo e TAC. Nesta área são também recebidos os doentes que, estando a ser seguidos em casa, revelam um agravamento do quadro. Por dia, passam por aqui 30 a 40 doentes. Metade fica no internamento (enfermaria ou Cuidados Intensivos).

Sala de Emergência (Urgência) - Exclusiva para casos críticos, esta área está dotada de recursos de Medicina Intensiva. Aqui podem ser executadas todas as manobras de suporte de vida, incluindo entubação e ventilação. Dispõe de cinco postos de tratamento. Daqui os doentes vão geralmente para Cuidados Intensivos

Com o aumento da área dedicada à Covid-19 e a separação entre doentes ligeiros, moderados e graves, o Serviço de Urgência (SU) do S. João vive uma aparente tranquilidade, principalmente de manhã.

Mas como estará daqui a um mês? "Temo que estará muito pior. O hospital tem dado uma resposta fenomenal, a todos os níveis, mas vai chegar o momento em que o internamento e os Cuidados Intensivos estarão próximos da sua capacidade final. E o SU é que vai ter de esticar", antecipa Nelson Soares. Nessa altura, vai haver mais doentes, mais casos graves e, provavelmente, menos profissionais e mais cansados.

"Estamos a preparar-nos, mas só daqui a um mês saberemos se estaremos capazes de responder." A expectativa de Cristina Marujo é que a experiência acumulada ajude na fase mais crítica e que, até lá, a equipa aguente a enorme pressão.

Na sala de coordenação, onde ninguém tira folgas há um mês, há uma dispensa improvisada. É lá que fazem muitas refeições. Casa é só mesmo para dormir. "Estou a viver na cave. Não abraço os meus filhos há três semanas. E não sei quando vai ser possível", confessa Nelson Pereira.

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