retaguarda

Doentes positivos com alta clínica mas dependentes ficam no hospital

Doentes positivos com alta clínica mas dependentes ficam no hospital

Os hospitais estão a ser obrigados a prolongar os internamentos de doentes covid-19 positivos que não têm autonomia. Nem as estruturas sociais, nem os cuidados continuados, nem as soluções encontradas pelas autarquias - como os "hotéis positivos" - estão a receber estes doentes que, por razões várias, não podem regressar ao domicílio.

A este desafio que a pandemia espoletou soma-se o crónico problema dos "internamentos sociais", ou seja, de pessoas com alta clínica que não têm para onde ir por falta de resposta da Segurança Social.

Só no Hospital de S. João, no Porto, 29 pessoas internadas esperam há meses para irem para lares. Esta semana, foi integrado numa estrutura residencial de idosos um utente que esperava há 660 dias por vaga, contou, ao JN, Alexandra Duarte, diretora do Serviço Social do S. João. Mas muitos outros aguardam lugar há mais de um ano.

Pouco antes do país ser afetado pela pandemia, "a Segurança Social procurou desbloquear algumas situações e saíram alguns doentes que aguardavam resposta desde 2018", referiu a responsável. Contudo, a resposta "estagnou" pouco depois, "por ventura pelas dificuldades que as instituições sociais também atravessam". Alexandra Duarte defende uma resposta intersetorial para um problema que se agudiza a cada ano. E que tem tendência a piorar com o agravamento das condições socioeconómicas das famílias, como nota Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH).

Segundo o último levantamento da associação (feito em 2019), os hospitais têm mais de 800 camas ocupadas por doentes sem necessidade de internamento. Custam cerca de 80 milhões de euros por ano ao SNS.

Paralelamente, faltam agora respostas para os doentes infetados, que já não precisam de internamento hospitalar, mas que são dependentes de cuidados e não podem regressar a casa. As soluções encontradas em articulação com as autarquias, como os hotéis, não servem para quem tem falta de autonomia e necessita de cuidados. Por outro lado, a maioria dos lares não está a receber doentes positivos e o acesso à rede de cuidados continuados exclui o internamento de infetados. As altas proteladas ocorrem por "falta de condições no domicílio que permitam o isolamento ou porque os cuidadores não podem ser infetados, porque não há apoio domiciliário para doentes positivos ou porque têm de ficar negativos para integrarem a rede de cuidados continuados", explica Alexandra Duarte.

Levantamento dos casos

Alexandre Lourenço conhece o problema e a APAH está a fazer um levantamento destes casos nos hospitais, cujo resultado deverá ser conhecido dentro de semanas. Para o responsável, a solução pode passar por ter algumas unidades de cuidados continuados a receber doentes covid-19 positivos.

No Hospital de Gaia, cuja administração chegou, em abril, a ameaçar fazer queixa das famílias que abandonam doentes no hospital, há nove internamentos sociais, a que se somam quatro utentes com covid-19 cuja alta tem sido adiada por não ser assegurada a continuidade de cuidados.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG