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A desilusão spinolista

A desilusão spinolista

Na Real República Rápo-Táxo, em Coimbra, o rádio debitava o programa Limite, da Rádio Renascença. Era a primeira hora do 25.º dia de abril de 1974, e António Marinho e Pinto, com outros estudantes, ouviu a "Grândola, Vila Morena", segunda senha para desencadear a Revolução, e lembra-se de ter comentado: "Ainda lhes vai acontecer o mesmo que ao Adelino Gomes e ao José Manuel Nunes".

A alusão aos radialistas, cujo programa "Página Um" havia sido suspenso, por causa de um comentário ao massacre nos Jogos Olímpicos de 1972, prendia-se com a forma como o tema de José Afonso fora precedido da declamação de alguns versos, por Leite de Vasconcelos. Mas falhou a perceção do que se passava. "Não ouvi o primeiro comunicado do MFA e fui para a cama, às quatro da manhã, sem saber que havia 25 de Abril", diz o ex-bastonário da Ordem dos Advogados.

Era um jovem ativo. Integrava a Comissão Pró-reabertura da Associação Académica de Coimbra, esteve na Juventude Comunista Portuguesa, integrou o Movimento democrático Estudantil (uma forma de "luta pela democracia pela via legal", que combinava com atividades clandestinas, como a difusão de panfletos ou as pichagens contra a guerra).

"A consciência política e ideológica, no meio universitário, era muito avançada e radical", explica, notando que, depois de perceber que a revolta não era de direita, teve a desilusão inicial de pensar que era spinolista e "recuada". "Nós queríamos uma democracia na área económica, que traduzisse uma repartição justa da riqueza", diz, fosse ela de matriz estalinista, trotskista, leninista... "Tínhamos uma consciência teórica muito avançada, mas desfasada da realidade", nota, admitindo que do sonho resultava alguma cegueira e que "as verdades que vinham do Leste eram encaradas como propaganda do Oeste, feita pela CIA".

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