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O dia da dupla satisfação

O dia da dupla satisfação

Era um dia como outro qualquer. Carlos Tê teria 17 ou 18 anos, levantou-se cedo para ir trabalhar, seriam 8.30 horas, saiu da Rua da Saudade, em Cedofeita, no Porto, apanhou o autocarro de dois andares e, lá de cima, olhando para a cidade, sentiu "alguma coisa estranha", mas longe ainda de imaginar o que seria.

"A verdade é que no dia 25 de Abril de 1974 eu não estava em nenhum lugar especial. Estava, como sempre, a caminho do trabalho, saí de casa sem saber de nada", recorda o letrista e autor do romance "O voo melancólico do melro". Depois, continua, "comecei a ver as movimentações na rua, dois tanques, comecei a falar com os colegas para tentar perceber o que estaria a acontecer".

Tê e os colegas, juntos a acompanharem os acontecimentos pela rádio, perceberam que estava em curso uma revolução. "Só que não sabíamos se seria para um lado ou para o outro, para a Esquerda ou a Direita". A incógnita ficaria desfeita por volta do meio-dia: "Era um golpe de liberdade", exclama.

"Foi um dos dias mais felizes da minha vida", confessa. Carlos Tê estava a atingir a maioridade, tinha como destino inescapável o mesmo de toda a gente da sua idade: combater na Guerra do Ultramar como fizeram milhares de portugueses entre 1961 e 1974.

"Sabia que, se nada acontecesse, teria de ir para Angola, Guiné ou Moçambique. Naquele dia de 1974, lembro-me que foi a primeira coisa em que pensei: já não tenho de ir. Tive imediatamente essa consciência, de que aquilo iria acabar". Foi uma dupla satisfação: "pelo fim da guerra e pela libertação do Ultramar dos jovens da minha idade", diz.

Carlos Tê entrou para a tropa em 1976, ano em que também começou a escrever letras em português. Estreia-se com a icónica "Chico Fininho", para Rui Veloso, que valeu ao músico o primeiro contrato discográfico. E já não foi para Ultramar. "Fez toda a diferença".

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