Pobreza

Dar a cara pela pobreza

Dar a cara pela pobreza

"Falta tudo. Tudo mesmo. Estão-me a embaraçar a paz". No Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social, as mensagens são de desalento. E são os próprios parceiros das comemorações em Portugal a reconhecer que a pobreza está a aumentar.

O desafio era para, numa frase, descrever a pobreza. E foram às dezenas os post-it colados, ontem, quarta-feira, à tarde, num mural no Largo Camões, em Lisboa, numa iniciativa das "24 horas pelo combate à pobreza".

Uma acção da Amnistia Internacional - que agora irá recolher todas as mensagens e enviá-las à Assembleia da República, a maioria pedindo "menos palavras e mais acção" e criticando o Governo por insistir em "falar do TGV e de mais uma ponte", quando há pessoas a passar fome - foi apenas uma das iniciativas que, durante todo o dia de ontem, decorreram por todo o país. E que incluíram um Fórum Nacional de Pessoas em Situação de Pobreza, organizado pela Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (REAPN), que hoje termina com uma sessão e entrega de um manifesto na Assembleia da República.

Sandra Araújo, coordenadora da REAPN, reconhece ao JN o "contra-senso" de, no ano que a Europa definiu que seria contra a pobreza e a exclusão social, a pobreza estar a aumentar. "Não temos números, mas a realidade está à vista de todos. O desemprego aumenta e com isso a precariedade", diz, reconhecendo que uma parte fundamental do impacto previsto com a celebração do Ano Europeu está em risco. E pedindo, desde já, que a próxima seja "a década de combate à pobreza", com cada país a definir o seu programa nacional.

Sérgio Aires, dirigente do Fórum Não Governamental para a Inclusão Social, citado pela Lusa, aponta a "ironia" de este ter sido "talvez o pior dos últimos 30 anos no combate à pobreza na Europa" e de se estarem a registar "enormes retrocessos", que atribui à ausência de uma estratégia europeia e de "equilíbrio" entre o desenvolvimento económico e o esforço de coesão social.

Na iniciativa, participaram pessoas que estão em situação de pobreza e outras que já conseguiram dar o salto.

Apesar da "vergonha", Serafim Carneiro, 57 anos, residente em Paços de Ferreira, ousa dar a cara. Desempregado há sete anos, depois de ter trabalhado 16  como director comercial de uma empresa de exportação/importação, recebe 100 euros do rendimento social de inserção (RSI) e confessa que, muitas vezes, passa fome e tem o frigorífico vazio. Os 475 euros que a mulher ganha esgotam-se na renda e numa ida ao supermercado. O resto do mês comem a fiado. E ele, triste e revoltado, diz que faria qualquer coisa para ter um trabalho.

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Adélia Fernandes, 45 anos, deu a volta à situação criando o seu próprio emprego. Mas reconhece que é "muito ténue" a fronteira entre uma vida confortável e a situação de desemprego, "que pode acontecer a qualquer um". É por esse alerta que dá a cara.

Reclamamar plano nacional e uma década de acção

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal vai hoje ao Parlamento entregar um documento intitulado "Para uma estratégia a 10 anos para a erradicação da pobreza". O manifesto, que inclui contributos de pessoas recolhidos nos 18 distritos do país, admite que "a actual crise económica fez despoletar um conjunto de medidas cujo impacto aumenta e continuará a aumentar os índices de pobreza", pelo que defende que a União Europeia deve declarar a próxima década como década de combate à pobreza. Cada país deverá ter o seu programa nacional, fomentar a economia social e prevenir a pobreza "desde os bancos da escola".

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