Conferências de Matosinhos

"Jovens têm medo que deixem de gostar deles"

"Jovens têm medo que deixem de gostar deles"

Catarina Mexia, psicóloga que trabalha na área da terapia de casais, justifica a banalização da violência pela influência social. Afinal, as telenovelas, os filmes, fartam-se de retratar ambientes de subjugação e de agressão e a edução não tem contrariado estas aprendizagens.

Como avalia o facto de tantos jovens banalizarem a violência no namoro?

É um valor extremamente elevado. Existe uma normalização da violência de uma forma geral. Eu diria que é também isto que eles veem nas telenovelas e à sua volta. Digo telenovelas porque é o que é de mais fácil acesso.

Como se explica?

Explica-se por causa das influências que recebem, dos cinemas, das novelas, dos jogos de computador. A maior parte dos jogos mostram uma banalização da violência; psicológica, sexual, o que seja. A violência acaba por se entranhar em tudo o que são relações, também nas sexuais. Veja os videoclips, como os da Rhianna, a maior parte das cenas possuem situações de subjugação. A mensagem subliminar é a da subjugação de um sexo pelo outro.

A educação para a sexualidade está a falhar?

Eu diria que a educação para os afetos está a falhar, porque no fundo, quando as pessoas baseiam a relação nos afetos essa questão não se coloca.

Não há educação para o namoro?

Normalmente uma boa relação é que tem por base uma boa amizade, os amigos são aqueles que são capazes de expressar o que vai na sua alma e entender que o outro está lá. Fala-se de facto mais de sexo do que namoro. Houve uma época em que se dizia às raparigas para não terem relações sexuais a menos que sintam que aquela pessoa a vai tratar bem. Portanto, fala-se de factos, mas estamos a dar-lhe um recado, não é uma conversa nem um manual de instruções. Não se lhes explica como se faz. Numa família em que os pais não se dão bem, sentam-se à mesa e não conversam, os filhos acabam por não saber onde ir buscar essa informação. Acabam por se servir dos pares e dos filmes.

Além dos que exercem, há os que se deixem submeter...

Infelizmente, os pais atuais não sabem dizer não aos filhos e isto não é construtivo em termos da personalidade. A seguir, essa criança também não aprende a dizer não. Ela julga que a capacidade do outro gostar dela depende dessa disponibilidade em termos emocionais. E normalmente só reage em situações limites.

Não pode refletir o facto de sermos uma sociedade machista?

Julgo que não e cada vez menos encontro essa situação nas camadas mais jovens. Julgo que tem a ver com a dificuldade em se afirmarem. Esse medo de deixar de ser gostado. Hoje em dia os escaparates das livrarias estão cheios de títulos para se aprender a dizer que não, porque esta geração não percebe que o crescimento também se faz pela frustração. É através dela que aprendemos a lidar com as nossas capacidades e a descobrir onde estão os nossos recursos.

Da perceção que vai tendo, o que vai mal nas relações?

O que eu vejo são relações de jovens adultos falhadas, resultado de relações de namoro que também falharam, porque houve problemas em desenvolver uma boa expressão dos afetos. Muitas dessas relações são muito funcionais. São relações em que as pessoas descobriram aspetos que as aproximam, mas quando estão sozinhas e têm de pensar em planos e projetos a dois, isso não acontece. Afinal, o estar, a partilha, não acontecia. Isso era uma chatice. Havia apenas uma satisfação muito rápida das necessidades.

Conferências de Matosinhos

Outras Notícias