Radiografia da costa portuguesa

Causas: A longa e pesada mão humana

Causas: A longa e pesada mão humana

"Desde que fizeram os molhes do porto de Viana". Quem diz Viana, diz Leixões, ou Figueira da Foz, ou o esporão deste sítio ou daquele... Ao longo da viagem pela costa que iniciaremos amanhã (em dias alternados), veremos dedos apontados às obras de engenharia costeira frequentemente culpadas pela erosão, agravando as causas naturais (subida do nível do mar, ventos, tempestades, regimes de marés energéticos).

O efeito destes obstáculos à circulação de areias ao longo da costa é bem conhecido: os sedimentos depositam-se a barlamar (a norte, no caso da costa oeste; a oeste, na costa sul), mas o mar escava a sotamar (a sul, na costa oeste; a leste na costa sul).

Mas as causas humanas começam no interior, com barragens e a exploração de inertes nos rios. Dados dos anos 90 do século XX indicam reduções no transporte de sólidos  para o litoral após a construção de barrages que chegam aos 80% no Douro, 82% no Tejo e 84% no Minho. Dragagens para manter a segurança e a operacionalidade na barras e portos, com a venda das areias ou a descarga no alto mar também contribuíram para diminuir as afluências sedimentares ao litoral. Prolongadas explorações de areias de praia adelgaçaram-nas e diminuíram ainda mais o transporte de sedimentos pela deriva marítima.

Por outro lado, a construção de edifícios e infra-estruturas sobre praias, em plena duna ou cordão dunar agravou o problema e tornou muitas vezes irreversível o recuo da linha de costa, ao destruir essas defesas naturais, que deixaram de reter as areias empurradas pelo vento e pelas marés.

Decisores políticos e técnicos discutem o que fazer: continuar a construir e a manter regularmente obras de engenharia pesada de elevados custos, ou proceder à realimentação artificial de praias e dunas. A primeira parece ser indispensável para proteger grandes aglomerados consolidados; a segunda está a dar resultados em troços não urbanizados, mas também como complemento à engenharia.