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Sul da Figueira ainda em risco

Sul da Figueira ainda em risco

Quem examina a "praia do Hospital", na Figueira da Foz, fica com a ideia de que o mar fustigou tanto a Cova-Gala no último Inverno que dela pouco sobrou com a arremetida enérgica da Natureza no último Inverno: as escadas de acesso ao areal estavam derrubadas na altura da nossa visita, em Junho; o que sobra da derradeira duna parece ter sido arrancado em colheradas gigantescas e, logo de relance, topa-se os efeitos destrutivos do látego oceânico em pelo menos um dos cinco esporões e nos paredões que protegem o aglomerado, com o seu enraizamento a acusar os efeitos da violência, desconjuntando e removendo algumas pedras. Não admira: o troço a sul do Porto da Figueira da Foz está na rota da erosão costeira, colocando em perigo os aglomerados populacionais da Cova e da Gala e, mais recentemente, Lavos e Leirosa, mais a sul.

O troço costeiro Cova-Gala à Leirosa, passando por Lavos, a sul da embocadura do rio Mondego, na Figueira da Foz, contrasta com a franca e crescente engorda das praias (mais turísticas...) da Figueira e de Buarcos, cujos areais cresceram com a retenção de sedimentos pelos molhes construídos nos anos sessenta do século passado. A primeira praia, localizada imediatamente a norte da obra portuária, tinha crescido 440 metros, segundo dados de 1980; a segunda, mais a norte, tinha engordado 180 metros. Com o prolongamento do molhe norte do porto comercial, agora concluído, o areal da Figueira deverá crescer anda mais uma centena de metros. E, todavia, a sul...

A sul, as praias têm emagrecido a olhos vistos e o recuo da linha da costa, que vai agravar-se (ver "Pormenores") é tão evidente que a literatura sobre erosão costeira replica cifras assustadoras do fenómeno, que, logo no primeiro decénio após a conclusão das obras portuárias na embocadura do Mondego, agravado pela extracção de milhões e milhões de metros cúbicos de areia do canal e até das praias, obrigaram à construção de urgência de obras aderentes (enrocamentos longitudinais, ou paredões), para proteger as casas, seguidos da instalação do campo de esporões. "O mar subiu bastante e, quando está maré-cheia ficamos sem praia; por vezes, vem às escadas", diz Maria Adelaide Silva, 48 anos, passeando o cão ao entardecer sobre o frágil paredão que protege as casinhas aninhadas atrás da obra, praticamente à cota da maré-cheia.

Em duas décadas, essa zona recuou 100 metros, recorda o geógrafo José Nunes André, investigador em Geomorfologia do Instituto o Mar (IMAR) no pólo da Universidade de Coimbra. Não admira que ainda hoje a zona esteja classificada como de risco elevado e que o Plano Litoral 207-2013 planeie novas intervenções.

Conhecedor profundo da zona, que monitoriza, está agora relativamente tranquilo quanto a Cova-Gala, cujos perfis de praia têm apresentado alguma estabilização desde o ano passado, talvez por efeito da realimentação da praia entre os esporões com areias dragadas da zona portuária, mas também porque a erosão é um processo progressivo, agravando-se para sotamar (no caso da costa ocidental, para sul) - em Lavos, para onde os órgãos da Autarquia têm reclamado protecção urgente, mas especialmente na Leirosa, a sul do seu esporão, onde as medições de José Nunes André chegaram a dar--lhe um recuo de três metros num mês. E, mais adiante, na praia de Pedrógão, em cuja duna registou um recuo de dez metros entre os dias 19 de Setembro do ano passado e 31 de Março último.

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