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Excomunhão pesa sobre criança violada

Excomunhão pesa sobre criança violada

Quando a Igreja Católica julga casos horrorosos, pode sair como a vilã da história enquanto os autores dos erros são colocados em segundo plano. Foi o caso de uma menina brasileira de nove anos, que, há três, sofria a violência sexual do seu padrasto, tendo engravidado de gémeos e feito um aborto.

Bastou que o arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso Sobrinho, dissesse que os responsáveis do aborto incorriam em excomunhão, como prevê o Direito Canónico, para que a pena passasse a primeiro plano. Só a seguir é que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil repudiou o estupro e pediu rigoroso julgamento do padrasto da menina.

O caso gerou polémica dentro e fora do Brasil. No Vaticano, o presidente da Pontifícia Academia para a Vida, D. Rino Fisichella, no diário "L'Osservatore Romano", convidou os leitores a fixar os olhos naquela menina, para que ela entenda "quanto lhe queremos bem".

A menina, diz D. Fisichella, "deveria ter sido defendida, abraçada, acariciada com doçura para fazê-la sentir que estamos todos com ela; todos, sem excepção. Antes de pensar na excomunhão, era necessário e urgente salvaguardar a sua vida inocente e recolocá-la num nível de humanidade, da qual nós, homens de Igreja, devemos ser anunciadores e mestres".

Apesar de palavras de misericórdia, o bispo D. Fisichella lembra que "a moral católica possui princípios dos quais não pode prescindir", pois, sublinha, "a defesa de uma vida humana desde a sua concepção pertence a um destes princípios e justifica-se pela sacralidade da existência". Por isso, a Igreja Católica condena o aborto como "um acto intrinsecamente mau", sujeito a imediata excomunhão. Na sua opinião, para a menina brasileira, não era urgente a excomunhão, mas o "testemunho de proximidade a quem sofre, um acto de misericórdia que, mesmo mantendo firme o princípio, é capaz de olhar além da esfera jurídica para atingir aquilo que o direito prevê como objectivo da sua existência: o bem e a salvação daqueles que crêem no amor do Pai e daqueles que acolhem o Evangelho de Cristo como as crianças, que Jesus chamava para junto de si e as abraçava dizendo que o reino dos céus pertence a quem é como elas".

Quem fará despertar o amor numa criança tão maltratada pelo padrasto e tão cedo ameaçada de excomunhão, excluída da comunidade?