Clima

Uma aldeia sob um céu escuro

Uma aldeia sob um céu escuro

"A partir do próximo mês, começa a campanha da azeitona, haverá dias em que a 20 metros não conseguimos ver nada, em pleno dia", garante Pedro Fonseca, um dos poucos moradores da aldeia de Cachão, Mirandela, que encontrámos, numa tarde em que a temperatura chegava aos 30.

O fumo libertado pela fábrica , propriedade da SODUOL, principalmente entre Outubro e Maio, resulta do processo de extracção de óleo alimentar a partir do bagaço de azeitona. A população assegura que, juntamente com o fumo, são libertadas partículas de cinza. "Os telhados ficam sempre cheio de ferrugem, ainda este ano tirei de lá uma enchente de terra ", afirma Humberto Seixas.

Além da sujidade que provoca, os prejuízos para a saúde são a maior preocupação dos cerca de 300 habitantes da aldeia. "Muitas vezes, custa-me respirar e o cheiro é insuportável", comenta Fernanda Freitas. "Há dias em que apanhamos a roupa ainda mais suja do que antes de a estendermos", acrescenta.

A situação não é de hoje. Em 2008, a população dirigiu um abaixo-assinado às autoridades ambientais. A Inspecção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAOT) fiscalizou a empresa, tendo detectado várias infracções, entre elas a libertação de cinzas da caldeira, a ausência de um sistema de auto-controlo das emissões atmosféricas e a falta de licenciamento.

Em resposta a um requerimento apresentado pelo grupo parlamentar da CDU, a IGAOT respondeu que na análise técnica dos impactes potenciais gerados por este tipo de fábricas podiam ser identificados como "passíveis de serem emitidos poluentes neurotóxicos e com grande potencial cancerígeno".

Em 2009, o Ministério da Economia confirmou a inexistência de licenciamento industrial, mas referiu que estava consagrada uma moratória para os estabelecimentos industriais que não possuam título de exploração poderem proceder à sua regularização. A empresa foi multada e obrigada a corrigir as irregularidades detectadas, mas poucas foram as alterações.

O JN não conseguiu obter uma reacção dos responsáveis da SODUOL, dona da fábrica.

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