Ambiente

Elas mudaram de vida para lutar contra o plástico e ensinar os outros

Elas mudaram de vida para lutar contra o plástico e ensinar os outros

Já é possível conhecer com detalhe os malefícios do plástico no nosso dia-a-dia. Desde a poluição e morte dos ecossistemas marinhos até à acumulação de resíduos em aterros, há poucas razões para não eliminar o descartável. Em Portugal, a preocupação ambiental tem sido crescente com fortes comunidades a marcar o passo de uma mudança verde. Ana Milhazes, Eunice Maia e Catarina Matos mudaram de vida: criaram negócios e agora ajudam os outros a fazer a transição ecológica. O JN foi conhecer as suas histórias.

Eunice Maia, de 39 anos, reconhece: era consumista e não tinha qualquer preocupação com a sustentabilidade. O rosto da "Maria Granel", com duas lojas físicas em Lisboa e uma online, passou a ter mais consciência ambiental a partir do momento em que criou o negócio que seria uma "homenagem às mercearias de bairro". É assim desde 2015. "Fui tendo abanões, porque fiquei a conhecer a estatística do desperdício alimentar e a quantidade de resíduos que cada português estava a gerar", esclarece ao JN.

A também professora de Literatura e Português foi uma das pioneiras do "bring your own container" ("traz o teu próprio recipiente") no nosso país. Inspirou-se em Bea Johnson, um dos nomes mais conhecidos do movimento desperdício zero no mundo, e incentivou os clientes da "Maria Granel" a trazerem os seus frascos e sacos para levarem os produtos da mercearia. "Costumo dizer que foi uma inspiração silenciosa, ninguém me impôs nada", conta. Em 2019, a Fundação Yves Rocher reconheceu o projeto "Maria Granel" com o primeiro prémio "Terre de Femmes".

No norte do país, Ana Milhazes, pelo contrário, esteve sempre em sintonia com a Natureza. A sustentabilidade era uma preocupação de há muito tempo: separava ao lixo e era vegetariana há vários anos. Mas queria fazer mais. Depois de criar um blogue sobre minimalismo em 2012 ("Ana Go Slowly"), quatro anos mais tarde, em 2016, Ana viu que o seu caixote do lixo estava demasiado cheio. Embalagens de plástico e lixo indiferenciado eram os produtos com mais volume.

"Aproveitava a minha hora de almoço no trabalho e levava frascos e sacos para trazer vários produtos", ou seja, começou a fazer compras a granel. Nem tudo foi fácil no início. Com exceção das tradicionais mercearias do centro do Porto, os produtos avulsos à venda não eram uma realidade assim tão abrangente. O gosto por um mundo melhor, mais saudável e com menos plástico, levou-a a enviar emails para todo o país. Queria saber onde se vendia a granel. Nos últimos três anos, as mercearias de desperdício zero começaram a proliferar, sobretudo nas grandes cidades.

Em 2020, Ana enfrenta um novo desafio: mudou-se para o Alentejo, onde as mercearias a granel são ainda mais escassas. Contudo, não baixa os braços. O "planeamento", diz, é uma regra de ouro para fazer compras com menos desperdício, mais sustentáveis para o ambiente e para a carteira. "Está tudo preparado para ser conveniente e mais rápido, então as pessoas trazem tudo o que está embalado", afirma.

Educar para contagiar

Catarina Matos não descansou enquanto não se viu livre da quantidade de embalagens e sacos plásticos que tinha em casa. Ainda na faculdade, hoje tem 33 anos, a impulsionadora do projeto "Mind the Trash" incentivou a mãe a fazer compras num mercado local de Lisboa, em vez de optar pelas grandes superfícies comerciais. "Comecei a ir com um trolley às compras. Na altura só as velhinhas usavam", diz ao JN.

Emigrou para Londres, onde viu dois mundos: o do consumo exagerado de plástico e o das alternativas para combatê-lo. "Quando vinha de férias para Portugal percebi que estava tudo muito parado neste campo", defende. Em 2017, quando regressou a casa, Catarina co-fundou o "Mind the Trash" como loja online de produtos sustentáveis para o lar -- antes era apenas uma página de Instagram para partilhar dicas.

Na verdade, além da consciência ambiental, há um outro aspeto que une Ana Milhazes, Eunice Maia e Catarina Matos. Além dos projetos e dos negócios que criaram em torno da luta contra o plástico, as três fazem questão de ensinar os outros, seja através de páginas nas redes sociais recheadas de informação até à participação em palestras e workshops sobre o ambiente. "Além do meu contributo individual, posso ajudar os outros a perceber que também podem cuidar do planeta", esclarece Ana Milhazes.

As páginas de Instagram da "Maria Granel", "Mind the Trash" e da autora do blogue "Ana, Go Slowly" reúnem juntas mais de 111 mil seguidores. "Uma inspiração silenciosa", nas palavras de Eunice Maia, que se espera que contagie muitos a livrar-se do plástico e a promover menos desperdício. Tanto Ana como Eunice já chegaram às livrarias com obras publicadas sobre desperdício zero.

Todas têm contribuído com campanhas fortes na Internet para mobilizar os clientes e seguidores para o bem-estar do planeta. "Há mais pessoas a ficarem preocupadas, mas há um longo trabalho a fazer", refere Catarina Matos, que não conseguiu evitar fazer um vídeo há semanas do lixo recolhido na Portinho da Arrábida, em Setúbal, situado em pleno parque natural.

A 13 de março, um projeto-piloto criado pelo Governo conseguiu recolher até ao momento meio milhão de garrafas de plástico -- uma média de 9500 por dia. A iniciativa é financiada pelo Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e oferece descontos a quem deposite as garrafas nos pontos de recolha. Os números são encorajadores para o Governo e para o país -- mostram que "o sistema está a ter adesão", disse Inês Santos Costa, secretária de Estado para o Ambiente, a 24 de julho. Ainda assim, dados do Eurostat de 2017 mostram que 65% das embalagens de plástico em Portugal ficam por reciclar. Um longo caminho a percorrer, mas "basta um pequeno gesto para fazer parte da mudança", conclui Eunice Maia.

Outras Notícias