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A doméstica que não contava ser deputada do BE

A doméstica que não contava ser deputada do BE

De oito para 19 deputados. Um "resultado histórico" só equiparável ao ocorrido entre as legislativas de 2005 e 2009, quando o Bloco de Esquerda (BE) passou também de oito eleitos na Assembleia da República para 16, tornando-se, então, a quarta força política do país.

Um resultado que nem os bloquistas sonhavam alcançar e que está a unir um partido, até há quase um ano fragmentado por uma liderança dividida entre João Semedo e Catarina Martins. Um dia depois das eleições, Catarina Martins surge como a líder natural do BE e tenta usar o peso dos 549 153 votos do partido para marcar o passo na oposição à coligação PSD/CDS.

Se o BE não imaginava atingir os 19 deputados, muito menos pensava que, no círculo eleitoral do Porto, Catarina Martins e João Soeiro passariam a ter a companhia de mais três eleitos (Luís Monteiro, Domicília Costa e Jorge Campos). "Subimos mais do que prevíamos", admite José Soeiro. De tal ordem, que Domicília Costa acabou por ser eleita, apesar de ter sido colocada em quarto lugar, como a própria confessa, "para preencher" a lista do Bloco de Esquerda pelo Porto.

Agora, a mulher, independente, de 69 anos, residente em Oliveira do Douro (Gaia), apresentada como doméstica mas antiga responsável por casas clandestinas do PCP, vê-se "metida em trabalhos". "Só me vai complicar a vida. Toda a gente me diz que tenho que ir para Lisboa. Não sei como me vou organizar", confessa. E mesmo assim vai? A resposta de Domicília é imediata: "Claro que vou! Se fui eleita...".

Uma alternativa ao PSD/CDS

No domingo, a viúva, natural de Alhandra, com dois filhos e três netos, foi votar debaixo de chuva. Depois, foi assistir à peça "Turandot", no Teatro Nacional S. João. Lanchou e resolveu passar pela sede do BE. Foi lá que Domicília Costa soube da novidade. "Ninguém estava a contar", assegura, atribuindo o "resultado histórico" do Bloco a Catarina Martins. "É muito comunicativa e sabe expressar-se. Cativa qualquer pessoa", justifica.

"Catarina Martins marcou esta campanha", concorda Helena Pinto, membro da Mesa Nacional do BE, que não se recandidatou a deputada. "É uma grande figura da Esquerda portuguesa", arrisca José Soeiro, convicto de que a subida de 5,17% para 10,22% deram o direito a Catarina Martins para, na noite eleitoral, "liderar a iniciativa da Esquerda", desafiando PS e CDU a unirem-se ao Bloco numa alternativa de Governo. Um repto consensual dentro do BE. "Reflete a maioria dos votos", justifica José Soeiro. "É a solução que respeita o resultado eleitoral", reforça Helena Pinto.

E até Pedro Filipe Soares - que, em novembro, se opôs a Catarina Martins, dividindo taco a taco a Mesa Nacional - concorda que, ao perder a maioria absoluta, o centro-direita deve perder também o poder. "O BE rejeitará que PSD e CDS continuem no Governo", reafirmou, ontem, o líder parlamentar do Bloco, convicto de que, se isso não acontecer, será "incompreensível para aqueles que votaram na esperança de um resultado diferente e de uma outra política".

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