Legislativas 2015

Passos Coelho mais agressivo e António Costa mais nervoso

Passos Coelho mais agressivo e António Costa mais nervoso

Um debate mais tenso, com um Passos Coelho mais agressivo e um António Costa mais nervoso. Mais temas abordados e mais aprofundados, o que expôs o maior nível de fuga às perguntas dos candidatos. Foi assim o frente a frente, que terminou, esta quinta-feira, já perto do meio-dia, nas três rádios de informação: TSF, Antena 1 e Renascença.

"Retórica" foi a palavra de ordem. Ambos acusaram o adversário de demagogia. Desta vez, Sócrates não entrou. A paternidade da troika também não.

Com excepção da crise humanitária dos refugiados, em que houve acordo, tudo o resto gerou atrito. Em particular, a questão da Segurança Social. António Costa não foi capaz de dizer em que prestações sociais vai cortar para obter a poupança de mil milhões de euros que consta do seu programa eleitoral, e Passos Coelho capitalizou essa ausência de resposta. "O senhor não é capaz de dizer porque não entendeu o numero que lhe colocaram à frente". E deixou um desafio: "Quer ganhe ou perca as eleições, no dia seguinte estarei aqui para discutir a reforma da Segurança Social. E o PS?" Costa não respondeu.

Um engarrafamento atrasou o duelo entre os dois líderes em sete minutos. A chegada ao Museu da Eletricidade do secretário-geral do PS estava agendada para as 9.25 horas e só cinco minutos depois chegaria o líder da coligação Portugal à Frente (PAF).

Contudo,o engarrafamento junto à Fundação Champalimaud impediu Costa de chegar primeiro.

O debate teve cerca de uma hora e meia, com 15 minutos dedicado a cada um dos temas, moderados pelo jornalista Paulo Baldaia (TSF), Maria Flor Pedroso (Antena 1) e por Graça Franco (Rádio Renascença).

Europa marcou o arranque dos primeiros 10 minutos, com Passos a aludir ao caso grego. António Costa acusou o primeiro-ministro de não se conseguir libertar do passado, em cada resposta que dava.

Sobre o assunto que marca a atualidade internacional, os refugiados, Passos admitiu que Portugal poderá receber cerca de 1500 pessoas. Portugal não se oporá a receber mais outros 2000, de acordo com as regras da Comissão Europeia. O primeiro-ministro afastou a hipótese de o país participar na operação militar contra o Estado Islâmico.

Costa não se quer comprometer com o envio de tropas portuguesas contra os extremistas do EI, caso venha a ser primeiro-ministro. Mas não afastou tal hipótese se essa intervenção militar surgir de um desígnio europeu, inserido numa ação global de combate ao terrorismo.

O défice, a dívida e Lisboa

O primeiro-ministro garantiu que "não é possível diminuir a dívida se não diminuir o défice". Mas, antes que Costa aludisse aos feitos conseguidos na área da dívida quando liderou a Câmara de Lisboa, entre 2007 e 2015, Passos lançou uma farpa: "consegui assumir uma parte da dívida de Lisboa, quando comprei os terrenos do aeroporto à câmara de Lisboa".

"Que grande lata", reagiu António Costa, salientando depois que "quem fez o favor ao Estado foi a Câmara de Lisboa". Segundo o socialista, o Governo "recebeu três mil milhões de euros" da venda ANA. "E o que fez? Mas que não amortizou dívida, não amortizou. Essa é diferença [entre a gestão da autarquia e a do país]", disse.

Já o social-democrata, munido de documentação aquando da negociação da venda de tais terrenos, garantiu que o Estado assumiu os 286 milhões de euros da dívida bancária de médio e longo prazo do município de Lisboa.

Líquidos, de acordo com Passos, Costa só "recebeu 9,5 milhões de euros" em troca da propriedade dos terrenos do Aeroporto, que opunha em tribunal a autarquia à Tutela, desde 1989.

Prestações sociais

António Costa não respondeu diretamente quando questionado por Graça Franco sobre as prestações sociais que poderá vir a cortar, já que no programa socialista para o Governo consta a introdução de uma condição de recursos em prestações sociais que poderá ter um impacto nas contas de 1,020 mil milhões de euros.

O líder do PS prometeu repor " o RSI, o CSI, o abono de família que foram cortados", mas, em relação àquela questão, admitiu ser necessário "ir introduzindo mecanismos de condição de recursos".

Passos acabou por cavalgar o desconforto visível de Costa e perguntou diretamente ao socialista: "que prestações não estão ainda sujeitas a condições de recursos que o dr. acha que podem permitir a Segurança Social poupar mil milhões de euros?"

"O PS quando esteve no Governo acabou com o 4º e 5º escalão. Disse: temos de aplicar a condição de recurso. Mas não aplicou", atirou.

Segurança Social

Ambos os líderes políticos evitaram o chavão que marcou o anterior confronto: plafonamento da Segurança Social.

O secretário-geral do PS foi desafiado por Passos para uma negociação sobre a necessária "reforma nesta matéria", acusando os socialistas de nunca terem querido discutir a Segurança Social.

"Estou disponível para no dia seguinte às eleições, quer ganhe quer perca, discutir a reforma do sistema de pensões", garantiu o social-democrata, questionando "O senhor está?"

"Não terá o nosso apoio", respondeu Costa, salientando que o "rombo de oito mil milhões" na Segurança Social resultou "da emigração e do desemprego". E que foi a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque a primeira a aludir "a um novo corte de 600 milhões de euros" nas pensões e que a coligação tem feito o esforço de tentar desmentir.