Portugal a votos

PSD e CDS ganham mais coligados do que sozinhos

PSD e CDS ganham mais coligados do que sozinhos

PSD e CDS ganham mais em concorrer coligados do que sozinhos nas legislativas, porque há menos votos desperdiçados aquando da conversão em mandatos. Ou seja, votos que, de outro modo, não seriam suficientes para eleger um deputado poderão, na soma dos dois partidos, traduzir-se em mandatos.

Luís Humberto Teixeira, autor de vários estudos sobre o sistema eleitoral, afirmou ao JN que a candidatura Portugal à Frente (PàF) "irá, quase de certeza, permitir que haja eleitos em todos os círculos, convertendo assim em mandatos todos os votos recebidos". E a coligação servirá, deste modo, para atenuar a perda de votos nos dois partidos.

Para concretizar a sua análise, Luís Humberto Teixeira explicou que "o CDS, enquanto partido médio, seria o mais penalizado pela inexistência de coligação, em vários distritos", com destaque para as regiões do "Minho, Beira e Alentejo". A propósito, sublinhou que, em círculos mais pequenos, os eleitores que votam na Direita poderiam ter tendência a escolher o PSD em detrimento do CDS, na lógica do chamado voto útil.

Porém, no atual sistema baseado no método de Hondt, considera que também "o próprio PSD teria a perder com a ausência de coligação, em algumas zonas do país, sobretudo no Alentejo".

Luís Humberto Teixeira considera que o sistema eleitoral foi mesmo "feito a pensar" nos grandes partidos e nas coligações. E "isso é visível na escolha do método de Hondt, o mais desproporcional dos métodos desproporcionais, e também na divisão do território em 22 círculos, o que beneficia claramente as forças mais votadas".

Os defensores do atual sistema argumentam que ele promove a governabilidade do país. No entanto, Luís Humberto Teixeira contrapõe que isso é feito "à custa de cerca de meio milhão de votos válidos que igual número de eleitores deposita em partidos médios e pequenos, mas que são ignorados aquando da conversão dos votos em mandatos", tornando assim "a Assembleia da República num espelho pouco fiel do eleitorado".

Ainda que mudar o sistema eleitoral, com vista a reduzir o número de votos ignorados, pudesse interessar ao CDS-PP, "não interessa ao PS nem ao PSD", sublinhou o investigador ao JN. Embora pessimista quanto à viabilidade de uma alteração do sistema, insiste que, "se foi possível mudar a forma de eleição dos parlamentos regionais da Madeira e dos Açores, está na altura de fazer o mesmo na Assembleia da República".

A solução, defende Luís Humberto Teixeira, poderia passar por substituir o sistema atual "por um círculo para todo o território nacional (onde o voto é presencial) e outro para a diáspora (que vota por correspondência)". Ou então por criar "um círculo nacional de compensação, similar ao que existe nos Açores e que trouxe maior pluralismo ao parlamento regional", exemplificou ao JN. Pelo contrário, criar círculos uninominais, como defendem por exemplo os socialistas, "só agravaria o número de votos válidos ignorados".

Olhando para estas eleições legislativas, considera que unir forças "demonstra atenção às regras do jogo". Além da PàF, Luís Humberto Teixeira destaca as coligações da CDU (PCP e "Verdes") e do Agir (PTP e MAS), e recorda que o Bloco de Esquerda resultou da união de várias forças (ler ficha ao lado). v