Reportagem

Entre selfies e poemas, Parlamento retomou trabalhos

Entre selfies e poemas, Parlamento retomou trabalhos

Pouco passava das dez horas e já soava o toque de entrada nos corredores do Parlamento. Enquanto uns deputados ainda se posicionavam para dar início aos trabalhos, outros iam conversando e posando para as fotografias dentro do hemiciclo - o burburinho e entusiasmo dominavam a sala antes do início dos trabalhos.

Eurico Brilhante Dias, novo líder parlamentar do PS, tomou a palavra e convidou Edite Estrela, segunda eleita por Lisboa, para presidir à primeira sessão. Estava dado o tiro de partida para a XV Legislatura, com ausências de peso. Rui Rio, ainda líder do PSD, faltou à primeira parte da sessão. Edite Estrela saudou os deputados com versos de Miguel Torga e, pouco depois, interrompeu a sessão para que os parlamentares fizessem o seu registo nos serviços do Parlamento.

"Recomeça. Enquanto não alcances, não descanses. De nenhum fruto queiras só metade", disse Edite Estrela, citando parte do poema "Sísifo".

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Interrompida a primeira parte da sessão, os deputados foram abandonando o hemiciclo e encheram os corredores do Parlamento. À porta do Salão Nobre, onde decorria o registo dos novos parlamentares, uma fila indiana ocupava todo o corredor. Enquanto esperavam, fotografias de grupo e selfies registavam aquele que foi o seu primeiro dia de trabalho.

Veteranos ajudam novatos

Os "novatos", acompanhados de quem já conhece os protocolos, iam sendo encaminhados para a fila para efetuarem o seu registo. Já no Salão Nobre, cada deputado era fotografado e auxiliado durante o preenchimento dos dados pelos serviços do Parlamento - a informação de cada parlamentar tem de ser preenchida pelo próprio.

Ao JN, dois deputados estreantes, Rita Matias (Chega) e Eduardo Alves (PS), também dos mais novos desta legislatura, revelaram a responsabilidade e entusiasmo que sentiam por iniciar funções como deputados. Ainda não sabem em que comissões parlamentares irão trabalhar, visto que é um debate que ainda decorre junto dos grupos parlamentares, mas esperam fazer a diferença em assuntos que lhes são caros.

Eduardo Alves, eleito por Portalegre, já não se perde nos corredores. Foi assessor do grupo parlamentar do Partido Socialista durante dois anos, mas teve de interromper para agarrar um desafio na câmara municipal de Ponte de Sor. "Não é uma estreia absoluta nesta casa, mas é uma estreia no exercício destas funções", disse ao JN. As comissões ainda não estão definidas e falta distribuir os deputados pelas mesmas, mas confessa que tem preferência por assuntos como o ambiente ou à habitação. "São hoje urgentes e merecerão da minha parte, e creio que de todo o grupo parlamentar, iniciativas legislativas para breve". É com grande orgulho que inicia as funções de parlamentar, mas "é sobretudo uma grande responsabilidade defender o país e o alto Alentejo", círculo pelo qual foi eleito.

O primeiro dia é de adaptação à nova realidade, contou Rita Matias, que sentiu um grande entusiasmo e responsabilidade assim que entrou no hemiciclo. "Estamos ali porque mais de 400 mil portugueses confiaram em nós (...) portanto não os queremos defraudar". Revelou que o maior desafio impõe-se pela maioria absoluta do PS e antevê que o Chega vai ser o líder da oposição. "Não vamos poupar este Governo, [vamos] fazer o escrutínio possível para garantir a qualidade da democracia e para garantir que os interesses dos portugueses são defendidos".

A jovem de 22 anos, eleita por Lisboa, também sente que é uma das vozes dos jovens no Parlamento, juntamente com os restantes sete deputados sub-30. Tem como objetivo falar das mulheres "sem lentes ideológicas" e abordar as necessidades concretas "de uma mulher que quer ser mãe, ou não, de uma mulher que quer estar inserida no mercado de trabalho, quer ser bem sucedida, mas que não quer ser utilizada por ser mulher como uma bandeira, como uma arma de arremesso", afirmou.

Ministros tomam posse depois

O toque de entrada voltou a soar no Parlamento por volta das 15 horas e os deputados iam entrando no hemiciclo para retomar os trabalhos da ordem do dia, já com Rui Rio e Fernando Medina presentes na sessão. Para a tarde estava previsto conceder o poder aos parlamentares eleitos e eleger o novo presidente da Assembleia da República (AR). Chamado ao palanque, Pedro Delgado Alves (PS) leu o relatório da comissão eventual para verificação de poderes dos deputados eleitos e comunicou as substituições parlamentares - os quatro ministros ainda em funções não podem tomar posse, só depois de deixarem o Governo.

Terminada a leitura, Edite Estrela deu o mote para a eleição do presidente da AR e anunciou o candidato único: Augusto Santos Silva, do PS, e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros. Com o Parlamento cheio e a urna colocada no centro do hemiciclo, os deputados foram chamados um a um, por ordem alfabética, para colocar o seu voto - individual e secreto.

A votação tinha tudo para correr bem. Contudo, erros na lista de deputados recebida pela mesa da AR obrigou a uma longa pausa na sessão para que fosse efetuada a chamada dos parlamentares, um a um, e confirmar que todos votaram. Antes de iniciar, Edite Estrela pediu desculpa e disse que a mesa era alheia ao sucedido.

63 votos contra e 11 nulos

Enquanto era efetuada a chamada e os deputados confirmavam que tinham votado - "Votei", diziam - o burburinho foi tomando conta do ambiente, acompanhado de algumas gargalhadas provocadas pelo acontecimento. Finda a chamada e a confirmação dos nomes de registo dos deputados, que iam sendo corrigidos, a sessão foi interrompida durante 15 minutos para que os votos fossem contados.

Contados os votos, confirmou-se a eleição do novo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, com 156 votos a favor, 63 contra e 11 nulos.

O primeiro discurso ficou marcado pela rejeição do discurso de ódio, o único que não terá lugar no parlamento, disse Augusto Santos Silva. Sem mencionar o Chega, a mensagem ficou clara. ""O patriotismo só medra no combate ao nacionalismo", afirmou. O recém eleito presidente da AR prometeu conduzir uma presidência "imparcial, contida e aglutinadora".

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