Casas milionárias nas encostas de luxo do Minho

Casas milionárias nas encostas de luxo do Minho

Montes dos Santuários do Bom Jesus e da Penha, em Braga e Guimarães, são o local predileto para a construção de moradias de milhões de euros. O preço do lote de terreno chega a ser dez vezes maior do que na cidade e são muitos os famosos que os procuram. Mas construção desenfreada pode ter os dias contados

Têm a melhor vista para as cidades, gozam de privacidade, muitas zonas verdes à volta, terreno suficiente para grandes jardins, piscina e até campo de futebol. As casas de luxo das encostas do Bom Jesus e Penha, em Braga e Guimarães, são o local predileto dos empresários e jogadores de futebol. Em qualquer portal imobiliário virtual é possível encontrar lotes de terreno urbanizáveis nas encostas do Minho cujos preços chegam facilmente aos 800 euros por metro quadrado. Em média, os terrenos para construção nas encostas da Penha e do Bom Jesus, sobretudo nas freguesias da Costa e Nogueiró, chegam a custar dez vezes mais do que os terrenos nas outras freguesias periféricas.


"Há uns anos, numa conferência, concluímos que os preços dos terrenos aqui na freguesia estavam iguais aos da Foz do Douro, no Porto. Temos casas de um milhão e meio de euros", revela João Tinoco, presidente da Junta de Nogueiró. Naquela freguesia de Braga há casas de catálogo, como a projetada por Souto Moura no largo de Dadim, protegida por muros altos e vegetação.

O autarca desconhece o proprietário, mas assegura que não faltam famosos em Nogueiró, e enumera alguns: os futebolistas Wilson Eduardo (ex-S. C. Braga) e João Carlos Teixeira (V. Guimarães), António Salvador (presidente do S. C. Braga) ou Hugo Soares e Artur Feio, presidentes das concelhias de Braga do PSD e PS, que até moram lado a lado. "Também temos muitos brasileiros, chineses, alemães, franceses e americanos", atesta João Tinoco.

Em Guimarães, na encosta da Penha, o cenário é o mesmo: casas até três andares às portas da cidade com privacidade garantida e vista de luxo. Contar piscinas durante a viagem de teleférico é quase desporto local. Moram ali Nuno Espírito Santo (treinador do Wolverhampton), os ex-jogadores Pedro Mendes e Sereno, o dono da Salsa, Filipe Vila Nova, ou o construtor Manuel Couto Alves. Na linha que separa a paisagem verde das casas de luxo está ainda a habitação de Fernando Meira, ex-internacional português. A casa está à venda por 3,7 milhões. Revestida a mármore, tem dois campos de jogos, piscina, spa, três salas de estar, salão de jogos, zona de karaoke e uma imponente vista (imagem em cima).

O luxo tem, no entanto, riscos. Em Guimarães ou em Braga, vão desde a destruição da paisagem e biodiversidade à impermeabilização dos solos, passando por riscos de cheias e erosão das casas. Em 2009, o geógrafo Miguel Bandeira, da Universidade do Minho, desenvolveu um estudo onde alertava para "o risco de consolidação das habitações" de Braga, resultante da "construção indiscriminada de casas" em encostas com declives. Hoje, Miguel Bandeira é vereador do Urbanismo de Braga e tem o Plano Diretor Municipal (PDM) em revisão. "Não tenho qualquer reserva em relação ao que disse no passado, mas não nego que alguma construção possa continuar a ocorrer por força de direitos adquiridos no passado, nomeadamente licenças já atribuídas", constata, salientando que o objetivo é "moderar, conter e evitar".

No caso de Braga, o travão à construção está plasmado no PDM que classifica como reserva florestal o que ainda resta da encosta do Bom Jesus. A classificação da UNESCO também obrigará a que novos licenciamentos tenham de ter autorização do organismo internacional. No entanto, estas condicionantes fizeram disparar o preço dos terrenos que já têm licença e aceleraram as construções que já estavam autorizadas. Em Guimarães aconteceu o mesmo. Segundo a Câmara, a encosta da Cidade Berço está "no ponto limite da capacidade das águas pluviais", pelo que está a ser desenhado um plano de pormenor que trave a construção.

Aos olhos dos nativos, os habitantes das casas de luxo são pessoas pouco sociáveis. Não têm as crianças na escola da terra, não vão à missa e raramente participam nos convívios entre os antigos. Fernando Gomes, habitante de Nogueiró, Braga, nem sabe quem são os vizinhos. Sabe, contudo, que a água que vem da encosta do Bom Jesus "é uma nona parte da que vinha antigamente" por culpa dos poços construídos com as casas de luxo. Ex-funcionário da Câmara, hoje pastor de 82 anos com 40 ovelhas, tem cinco hectares de terreno em zona privilegiada e recusa vender. "Enquanto eu for vivo não se vende, depois quem vier que decida". Sem filhos, recebe visitas diárias de empreiteiros, engenheiros e arquitetos que lhe querem comprar lotes de terreno.

Encontrá-lo é fácil, basta ir à zona das moradias de luxo de Nogueiró e lá andará Fernando de sachola na mão ou a pastar as ovelhas. Convencê-lo a vender os terrenos é impossível, pois sente todos os dias os efeitos da construção desenfreada. "As ovelhas não comem o pasto porque não têm onde beber, elas sabem", constata, enquanto mostra um tanque natural vazio que outrora inundava os campos e hoje mal dá para tirar um copo de água.

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