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A vida secreta do segundo shopping mais antigo do Porto

A vida secreta do segundo shopping mais antigo do Porto

Quarenta anos após a badalada inauguração, Centro Comercial de Cedofeita, no coração do Porto, resiste quase em segredo ao acelerar de uma cidade de consumo que o foi deixando para trás. Lojas originais e pequenos escritórios são a grande aposta. Com rendas baixas e muita criatividade, tem 100% de ocupação

São apenas memória os tempos em que a loja de discos Jo-Jo's atraía multidões de apaixonados melómanos, ou em que a discoteca La Folie arrancava passos de dança durante matinés de música e copos. Até o lago para onde, outrora, se atiravam moedas em troca de um desejo, está sem água. Mas quem percorre o Centro Comercial de Cedofeita (CCC), à entrada da rua homónima, no Porto, não imagina a vida que lá cabe dentro. Embora não pareça.

De lojas que parecem paradas no tempo a estúdios vivos de imaginação e ideias, de espaços únicos na cidade a pequenos ateliês de arte, de negócios que resistem a apostas quase revolucionárias no mercado. É esta mistura improvável que assegura que, aos 40 anos, o CCC continue vivo, apesar dos vários prenúncios de morte num passado não distante.

As muitas portas fechadas enganam. Oferecem um panorama fictício de abandono àquele que é o segundo centro comercial mais antigo do Porto, inaugurado em grande, a 14 de dezembro de 1978, dois anos após a abertura do Brasília, o primeiro de Portugal e de toda a Península Ibérica.

"A aparente ideia de abandono e vazio é falsa. A verdade é que temos cá imensos gabinetes de trabalho. De designers, de fotógrafos, de pintores, de músicos, de joalheiros, de agentes imobiliários, enfim, de muita gente que aqui encontrou uma oportunidade para desenvolver o seu trabalho. Como não fazem vendas ao público, não é necessário que mantenham porta aberta", explica Teresa Pinto, 51 anos, administradora há uma década do CCC, juntamente com Eduardo Pereira, de 47.

Quando Teresa e Eduardo tomaram em mãos os comandos do CCC, a realidade era assustadora. A taxa de ocupação dos 49 escritórios e 112 lojas que preenchem os três andares do retângulo sinuoso que é o Centro Comercial de Cedofeita não chegava aos 50%. Propriedade coletiva de todos os lojistas, o centro vivia ameaçado pela indefinição. "Havia problemas estruturais, dívidas, ninguém se entendia. Parecia não restar outra solução que não a entrega às Finanças", recordam os administradores. Mas Teresa Pinto e Eduardo Pereira não baixaram os braços e imaginaram uma revolução que devolvesse o CCC à vida. "Tentámos pensar um processo de repovoamento", lembram.

Dez anos volvidos, as 161 frações estão integralmente ocupadas, há clientes assíduos e o bulício, não sendo constante, é assinalável, tendo em conta inevitáveis comparações com o passado.

Uma das razões de tamanha capacidade de adesão aos novos tempos do CCC é o custo das rendas, muito abaixo do normal praticado noutros semelhantes. "Dependendo da área de cada fração, vão, no máximo, até aos 200 euros", apontam os administradores.

Entre os corredores é difícil, mas ainda possível, encontrar lojistas que percorreram os 40 anos do shopping. Como Luís Lourenço, no seu salão de barbearia, onde não faltam calendários de beldades seminuas, a "Trapalhão", da D. Natividade, octogenária que não dispensa umas horas diárias na sua loja de modas e confeções, e o "Cantinho da Teresinha", restaurante que foi casa de tertúlia de artistas.

De realçar ainda as portas fechadas que escondem o que lá dentro vai de atividade inovadora. Como a pequena oficina de joalharia de Raul Silva, que depois do desemprego "partiu para uma vida nova" e hoje constrói peças que vão ganhando prémios. Ou a Rádio Portuense, projeto online de Luís Mesquita e Carvalho Araújo, tripeiros que espalham ao microfone notícias sobre a cidade que amam. Ou o Clube de Colecionismo de Gaia, que ali encontrou abrigo para vastas compilações reunidas por empenhados membros, como Fernando Peixoto Correia, "o português com mais artigos reunidos sobre Madonna e o F. C. Porto". Ou tatuadores, antiquários, músicos. E uma galeria de arte que projeta artistas emergentes, o a sala de ensaios de teatro. E outros tantos que o CCC guarda como seus e protege. A estes e aos lojistas de porta aberta, como Diogo Dias, à frente do único local no Porto onde é possível comprar artigos de circo, "muito procurado por pais que querem dar aos filhos motivos que os tirem da frente de tablets e telemóveis".

Sentindo tamanho fervilhar, Teresa Pinto e Eduardo Pereira confiam que a palavra otimismo não é mal aplicada ao futuro do Centro Comercial de Cedofeita. "Não há razões para o temermos", afiançam. Os 40 anos são, simplesmente, o princípio de uma nova vida. Escondida, mas palpitante.

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