Pandemia

Animais são agora "turistas" nas cidades

Animais são agora "turistas" nas cidades

Pássaros que arriscam cantar em horários inusitados, raposas que passeiam pelo meio de prédios, espaços públicos vigiados por aves de rapina, roedores livres para explorar o inexplorado, animais que perceberam o silêncio e o vazio dos centros urbanos e arriscaram entrar onde os humanos lhes traçavam a linha vermelha do medo. Portugal não foge ao que vai fazendo regra Mundo fora.

"Dantes, eram os animais que estavam como que numa gaiola onde os podíamos espreitar. Agora, quem está dentro da gaiola somos nós e são eles que nos veem pelo lado de fora. Inverteram-se as posições". O retrato é traçado por José Matos, bastonário da Ordem dos Biólogos, e é metáfora acertada para os tempos que vivemos. Com o Homem confinado devido à pandemia de Covid-19, as cidades perderam a movimentação de sempre, as ruas esvaziaram-se, o silêncio ganhou forma, os ruídos foram-se. Os animais aperceberam-se rapidamente das mudanças e perderam o medo, ganhando pulso e presença em territórios onde pouco abundavam por temerem as consequências de se intrometerem em ambientes dominados por aqueles que instintivamente sempre recearam.

"Perderam o medo. E como se sentem em segurança, arriscam. Não é uma questão de busca de alimento, que eles sabem perfeitamente onde o encontrar nos locais habituais. É, pura e simplesmente, o instinto de buscarem o novo fora do habitat natural", explica João Noronha, presidente do Clube Português de Felinicultura.

Não se espante, por isso, se avistar desde a janela ou a varanda de casa espécies que nunca imaginou poderem ser vistas nas cidades. "Como morcegos, aves de rapina, corujas, enfim, animais que sabem que o estímulo negativo que somos está moribundo e ganharam coragem, avançando para áreas que antes lhes estavam impedidas", detalha o biólogo Élio Vicente, do Zoomarine Algarve.

"Há outro fenómeno muito curioso, o de aves que apenas cantavam à noite, quando sentiam o silêncio, e agora fazem-no de dia, como forma de atrair as fêmeas em plena época de reprodução. Sentem-se tranquilas com o quase desaparecimento da poluição sonora. Além de que agora habitam as árvores das cidades, algo quase impossível de imaginar", observa Diogo Oliveira, biólogo do Instituto Superior de Agronomia. "A Natureza está à nossa porta e raramente nos apercebemos disso. É uma oportunidade para repensarmos a nossa relação com o meio ambiente e, em particular, com os animais".

Também os ninhos vão ganhando forma em ambiente citadino, nomeadamente em parques, jardins e edifícios de telhados altos. "Sítios onde a presença humana é pouco sentida pelas aves, que sentem existir mais espaço que podem considerar como seu", avança, por sua vez, Pedro Geraldes, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. "Não é uma invasão, longe disso, apenas a consequência natural para quem não se sente ameaçado e não necessite de se reservar perante o comportamento dos seus predadores, que é isso que, no fundo, os humanos representam", completa.

No entanto, há exceções à regra. Como as gaivotas, por exemplo, para quem este recolhimento temporário do Homem acaba por ser prejudicial. "As gaivotas são dos poucos animais que não têm qualquer receio do contacto com pessoas, bem pelo contrário. É comum buscarem comida junto de resíduos, até em esplanadas. Como agora a movimentação é menor, o provável é que não surjam tão frequentemente em meios citadinos e sintam estranheza por não conseguirem o que se acostumaram a obter sem dificuldades de maior", sublinha Élio Vicente, do Zoomarine Algarve.

E há os roedores, sobretudo ratos, potenciais ameaças à saúde pública e que ganharam, também eles, razões de sobra para partirem em busca do que lhes sugeria proibido. "Existe esse perigo, claro, assim como o da multiplicação de pragas, como as baratas. Mas o ciclo natural indica mecanismos também naturais que os controlam. Acabam comidos por outros animais, tão simples como isso", assinala Diogo Oliveira.

Não se pense, porém, que os animais vieram para ficar. Quando as cidades retomarem o bulício de sempre, o mais certo é recolherem para onde se sentem mais protegidos. "Os humanos serão sempre uma ameaça da qual terão tendência natural a afastar-se", garante Pedro Geraldes. Até lá, as cidades continuarão a conviver com os que se habituou a afastar.

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