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"Anjos" travam carteiristas no metro de Barcelona

"Anjos" travam carteiristas no metro de Barcelona

Sem violência, e com forte sentido cívico. Inspirados numa organização de Nova Iorque, voluntários organizam-se em patrulhas para avisar os turistas que viajam nos transportes da cidade espanhola da presença de "amigos do alheio". Em Lisboa, já há grupos no Facebook a denunciar estes casos.

Tudo começou quando um grupo de moradores no Bairro Gótico de Barcelona criou o Residents Organization Against Robbery (ROAR) no Facebook para partilhar experiências de furtos e roubos na cidade. Cedo concluíram que grande parte destes crimes ocorria nos transportes públicos. Inspirados nos "Anjos guardiões de Nova Iorque" - que há cerca de 10 anos patrulham o metro da cidade norte-americana - os voluntários catalães decidiram seguir-lhes as pisadas. Com camisolas que os identificam como "patrulheiros", e de apito na mão, andam pelas carruagens e lançam os alertas da presença dos carteiristas referenciados.

O objetivo, a médio prazo, é alertar as autoridades para a necessidade de endurecer leis que castiguem este tipo de crimes, de forma "a contrariar o sentimento de impunidade" com que os seus autores se movimentam, como contou ao JN Urbano um dos representantes. Em Portugal, não há notícias de "brigadas" ativas no terreno, mas também há já grupos organizados nas redes sociais, sobretudo em Lisboa, que se dedicam a postar fotos dos suspeitos.

"Andamos uniformizados, em grupos de quatro a seis pessoas, conforme a disponibilidade dos voluntários, que conciliam esta atividade com as suas vidas profissionais", explica ao JN Urbano Mery Peña, uma médica colombiana radicada em Barcelona. E explica que é através da "publicação de fotos, estatísticas ou mapas interativos das zonas mais perigosas da cidade" nas redes sociais que esperam poder ajudar as autoridades a combater o crime.

Quando detetam um carteirista no metro, os "anjos" de Barcelona têm um objetivo: "Que abandonem a estação ou o comboio", explica Mery Peña, acrescentando que o apito serve nestas ocasiões para chamar a atenção dos presentes. A missão cívica pode, no entanto, trazer dissabores. "Agressões dos carteiristas não temos sofrido. Às vezes, cospem-nos e insultam-nos, outras até gozam connosco e riem-se", adianta. A exceção é Eliana Guerrero, conhecida como a "mulher-patrulha", que se dedica há 10 anos a esta atividade de denúncia e que já sofreu alguns "apertões".

Mery Peña sublinha que a filosofia do grupo assenta na não violência, o que lhes vale alguma tolerância das autoridades locais. "A Polícia não nos proíbe de atuar, mas também não aconselha que o façamos. E, perante situações potencialmente perigosas, diz para os chamarmos", conta.

A médica realça ainda o forte espírito de comunidade. "O crime é um problema da sociedade em geral e, todos nós, cidadãos, devemos pensar como deixámos que esta vaga de insegurança esteja a crescer a este nível numa cidade tão bonita como Barcelona", refere. Mery Peña destaca sobretudo a tal "impunidade" com que os carteiristas atuam. "Quando são apanhados, são detidos e saem no mesmo dia. No máximo, se roubarem mais de 400 euros, vão a tribunal, onde se apresentam como insolventes e não lhes acontece nada", conclui.

No ano passado, Barcelona foi considerada a cidade mais insegura de Espanha. Segundo dados do Ministério do Interior, 60,6% dos habitantes citam a insegurança e o crime como os principais problemas da cidade condal. Os furtos nos transportes encabeçam as preocupações. Há precisamente uma semana foi notícia uma revolta de passageiros do metro que agrediram e retiveram até à chegada da polícia um carteirista que havia roubado um telemóvel a um passageiro.

Em Portugal, há já grupos no Facebook que se dedicam a denunciar os rostos dos carteiristas. O Pickpocket in Lisbon é o mais conhecido e conta atualmente com cerca de 17 mil seguidores. Aqui há vídeos e fotos de flagrantes delitos de furtos a transeuntes. O administrador do site assegurou ao JN Urbano que, como em Barcelona, "esta página não promove a violência".

Segundo o mesmo, na capital, multiplicam-se os furtos, embora estes sejam mais frequentes nas ruas, uma vez que a legislação prevê penas mais duras se os furtos ocorrerem no interior dos transportes. "Na zona histórica, onde trabalho, muitos carteiristas são bem conhecidos. Alguns agentes até já os conhecem pelo nome", referiu ao JN.

Já no Porto, há uma página para denúncia, mas não tem havido casos flagrantes como na capital. Um administrador desta página disse ao JN que a mesma serve mais "para partilhar os casos de Lisboa, de forma a prevenir quem vá à capital".

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