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As cotonetes que fazem milagres na Igreja portuense de Santa Clara

As cotonetes que fazem milagres na Igreja portuense de Santa Clara

Com as obras a decorrer desde 2014, a talha dourada daquele que é um dos melhores exemplares do barroco joanino ganha brilho. À medida que avançam os trabalhos de conservação e restauro, somam-se as descobertas que desvendam a história de um monumento imponente do Porto.

o mais ínfimo pormenor. É desta forma que os técnicos da Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN) estão a trabalhar no restauro da Igreja do Mosteiro de Santa Clara, um dos mais belos tesouros escondidos da cidade do Porto. Na chamada "Operação Igreja de Santa Clara", que teve início em 2014, todos os bocadinhos contam. Afinal, trata-se de um edifício que é considerado Monumento Nacional desde 2010. Num local onde os olhos das pessoas refletem o imenso brilho da talha dourada, que reveste integralmente o interior da igreja, a cotonete é o melhor aliado, tal é a minúcia dos trabalhos de conservação e restauro.

Os cerca de 25 técnicos de conservação e restauro que diariamente trabalham no interior do monumento conseguem ver de perto os estragos provocados pela térmita - inseto que corrói a madeira - que consegue provocar danos avultados em várias peças do recheio artístico. Além da criação de barreiras à térmita, a primeira fase da intervenção, que decorreu em 2014 e 2015, realizaram-se trabalhos de colocação de revestimento cerâmico nas coberturas e reabilitação de alguns vãos.

"Agora, o que está a ser feito é a intervenção em todo o recheio da igreja, da nave e da capela-mor", revelou ao JN Urbano Adriana Amaral, adiantando que "esta é a principal empreitada da operação". Numa igreja que é integralmente revestida a talha dourada, a principal especialidade é a madeira dourada e pluricromada. Mas, a coordenadora da DRCN indica outras especialidades que ali se encontram e contribuem para a imponência do monumento, desde a pintura de cavalete à pintura sobre pedra, passando pelos azulejos e pelos metais. "É um trabalho moroso porque para além do que vemos, da questão da limpeza do ouro e da policromia, há questões de natureza estrutural, que têm que ser feitas agora para garantir a segurança das peças e das pessoas", explica.

À medida que os trabalhos vão avançando, muitas são as descobertas que surpreendem os técnicos. Por baixo de tons acastanhados, escurecidos pelo tempo, surgiu uma lápide dirigida às freiras clarissas, uma ordem para rezarem uma missa diária ao abade de Vandoma, que estava sepultado na capela do Mosteiro. E onde parecia que havia uma só cor, descobriram-se vários tons. "A igreja teve várias campanhas de decoração. Em alguns sítios, as pessoas foram envernizando por cima da sujidade. E principalmente mais em baixo, onde o acesso era mais fácil, foram usando alguns produtos pouco adequados, o que fez com que surgisse um tom empastelado, com uma leitura homogénea. Agora, ao limpar as sucessivas camadas, apareceram zonas pluricromadas, com vários tons que imitam pedras", conta a coordenadora da operação, sublinhando que a intervenção é, aliás, "uma descoberta".

Após a operação, que conta com um ateliê de marcenaria, uma empreitada na sacristia e inclui a reparação do um imponente órgão de tubos que se destaca pela decoração barroca, a estrutura do edifício vai manter-se. Mas serão criadas estruturas de acesso para toda a gente. No total, as intervenções ultrapassam os dois milhões de euros, um valor assegurado por fundos comunitários e por mecenas. Entre janeiro e março, o monumento estará de portas abertas ao terceiro sábado de cada mês, com visitas guiadas gratuitas para um máximo de 30 pessoas, que deverão inscrever-se num formulário que será disponibilizado, no início de janeiro, no site da DRCN, em: www.culturanorte.gov.pt.

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