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As pragas que vêm do céu

As pragas que vêm do céu

Cidades obrigadas a delinear novas estratégias para combater o aumento de pombos e gaivotas. Da saúde pública aos danos nos imóveis, são muitas as nuvens sobre as nossas cabeças

Pombos que sujam como praças das cidades, degradam monumentos como suas fezes e podem transmitir doenças como criptococose ea histoplasmose. Gaivotas que chegam da costa para se alimentar do lixo e atacam pessoas, deixando atrás um rasto de bactérias, ruído, sujidade e danos em edifícios e bens de mercadorias. Cegonhas que nidificam em pórticos nas autoestradas, colocando em causa uma segurança rodoviária.

Como as aves vieram para as cidades eo seu número tem aumentado de tal forma, devido à facilidade com que conseguimos alimentos, locais para nidificar e evitar predadores, que como preocupações e queixas das populações são aumentadas de tom. As autarquias procuram respostas para o problema, desde o que há de pombais contraceptivos em Lisboa a proibição de alimentação como aves um pouco por todo o lado, mas nem sempre com os efeitos desejados e sem consenso.

Ana Luísa Ferreira, estudante da Universidade de Aveiro (UA), saiu em 2015 para as ruas da cidade e concluiu que a maior parte das pessoas não consideram os pombos como "ratos do céu", mas, mesmo assim, "85,3% concordam com uma necessidade de controle e sua população ". "Dos problemas detectados em Aveiro relacionados com pombos, como questões ligadas à saúde são como mais valorizadas. Questões que impliquem uma eliminação de pombos são descartadas, uma vez que existe uma ligação emocional com os mesmos, trazendo benefícios sociais e psicológicos", explica Ana Luísa Ferreira.

É, em parte, por isso, é difícil fazer cumprir a proibição de alimentação dos pombos e aplicar como contraordenações previstas por autarquias. Em Lisboa, dá direito a coima, que pode ir de 26,5 a 106 euros. A medida replica-se, com outros valores, em várias cidades, mas dificilmente se cobra a quem lança milho aos pombos. É possível, a aplicação das coimas pode "acarretar fatores sociais que causem revolta nas pessoas", diz o docente de ecologia urbana da UA, António Luís. O professor realça, ainda, q ue os pombos e as gaivotas, como aves que têm motivado mais queixas, têm características bem distintas. Os pombos são granívoros, de pequeno porte, reproduzem-se várias vezes por ano e apesar de não terem medo das pessoas, não são agressivos. Estão em quase todas como cidades lusas. Já como gaivotas,É que, devido à tal relação afetiva e hábitos instalados, a aplicação das coimas pode "acarretar fatores sociais que causem revolta nas pessoas", diz o docente de ecologia urbana da UA, António Luís. O professor realça, ainda, q ue os pombos e as gaivotas, as aves que têm motivado mais queixas, têm características bem distintas. Os pombos são granívoros, de pequeno porte, reproduzem-se várias vezes por ano e, apesar de não terem medo das pessoas, não são agressivos. Estão em quase todas as cidades lusas. Já as gaivotas, que se encontram cada vez mais nas cidades costeiras, são omnívoras e podem ser agressivas, sobretudo se sentirem que os ninhos ou crias estão em perigo e se tiverem fome.

Em 2010, o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) contabilizava 16 mil gaivotas de 12 espécies. Só no Porto. Quando o JN visitou recentemente uma Travessa como Águas, não Bonfim, os moradores contaram que como gaivotas são tantas, que tornaram uma "verdadeira praga" que é "insuportável".CIIMAR) contabilizava 16 mil gaivotas de 12 espécies. Só no Porto. Quando o JN visitou recentemente a Travessa as Águas, no Bonfim, os moradores contaram que as gaivotas são tantas, que se tornaram uma "verdadeira praga" que é "insuportável".

As atividades do dia a dia, desde estender a roupa a tentar dormir, são uma "dor de cabeça". E os estragos em telhados multiplicam-se. Mas a questão é também de saúde pública. Os dejetos das gaivotas, que podem transportar bactérias, secam e transformam-se num pó fino , facilmente inalado. Há alguns anos, ao analisar os excrementos das gaivotas na orla costeira do Porto e Matosinhos, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) verificou a presença de bactérias E. coli, resistentes a 20 antimicrobianos testados.

As bactérias passam nas estações de tratamento de águas residuais e acabam por ser as gaivotas, que frequentam as zonas aquáticas, a ficar infetadas e a depositar os micróbios, através das fezes, em praias e cidades. Há dois anos, outro estudo deste instituto indicava que havia uma "estabilização ou até ligeira diminuição" na disseminação das bactérias, porque as cidades estavam a "tratar melhor os esgotos", explicou Paulo Costa, professor de segurança alimentar do ICBAS.

Transporte do peixe

O especialista do ICBAS alerta, ainda, para a necessidade de se melhorarem as condições em que o peixe é transportado nos portos marítimos. Não é difícil que, entre a chegada do peixe no convéns dos barcos e a sua comercialização, lhes caiam dejetos de aves.

Para controlar a propagação em meio citadino, as câmaras do Porto, Matosinhos e Gaia avançaram com medidas para travar a proliferação de gaivotas, como a proibição de alimentar as aves, conselhos para o lixo ser bem acondicionado, pinos e outros sistemas para evitar pouso nos edifícios públicos e falcões no rio Douro.

Atualmente, o CIIMAR e os municípios da Frente Atlântica da Associação de Municípios do Porto estão a ponderar a realização de um novo estudo da situação das gaivotas na cidade do Porto. Em Lisboa, a Junta de Benfica foi a primeira da cidade a instalar um pombal contracetivo, no passado dia 25 de maio. O pombal foi instalado pela Câmara, a Junta faz a manutenção e uma equipa de voluntários garante o seu funcionamento. "Substituímos a maior parte dos ovos por outros que não darão crias e deixamos só um verdadeiro por postura. Se os tirássemos todos e não nascessem crias, eles iam pôr mais para substituir e faziam mais ninhadas", explica a presidente de junta, Inês Drummond.

A medida, amiga dos animais, permite controlar a população, ainda que os efeitos demorem a ser vistos. Até meados do ano passado, a presidente de Junta conta que haviam sido retirados, no pombal e lago próximo, um total de 110 ovos. "Não resolve, mas é uma ajuda", admite a autarca. Inês Drummond conta que o plano da Câmara é instalar mais sete pombais. No espaço de dois anos, a autarquia conta ter 24 pombais de esterilização instalados. Em Ovar, o município está preocupado com questões de "higiene e salubridade públicas" e tem desenvolvido medidas para tentar controlar o excesso de aves, sobretudo pombos. Tem aplicado sistemas dissuasores de aves, nomeadamente por impulsos elétricos, na fachada do edifício da Câmara e por picos no mercado municipal.

A recente publicação do Regulamento Municipal de Ambiente introduz novas regras sobre a alimentação de animais e controlo de pragas, permitindo "fiscalizar, notificar e aplicar contraordenações aos infratores", explica a autarquia ao JN. Para além de tentar sensibilizar a população e proibir a alimentação das aves, a Câmara vareira quer reduzir o seu número. Por isso, "têm sido adquiridas anualmente e de forma permanente jaulas de captura e instaladas em diferentes edifícios, com recolha periódica pelos Serviços Municipais de Veterinária", explica a autarquia. Chegou-se a equacionar o controlo da natalidade "através de substâncias anticoncecionais, mas esta solução não foi avançada face ao custo elevado de aquisição e reduzida eficácia no concelho", acrescenta.

A autarquia chegou a contactar informalmente empresas que usam falcões, aves predadoras de pombos que, se não os caçarem, pelo menos os assustam. Mas percebeu que "a aplicabilidade desta técnica não seria aconselhável em espaços citadinos", diz. A autarquia diz que tem registado uma "diminuição considerável da população de aves". Mas tem um preço: "Os custos envolvem despesas com contratação de serviços, que rondam os 15 mil euros por ano", desvenda a autarquia.

Impulsos elétricos

Muitas vezes, as autarquias recorrem a empresas para controlar as pragas. É o caso da Companhia Europeia de Desinfeções CED), gerida por João Pereira. Dos pedidos relacionados com pragas de aves que lhe chegam, a grande maioria (cerca de 90%), estão relacionados com pombos. Em segundo lugar, estão as gaivotas. Em terceiro lugar e mais direcionado para as explorações agrícolas ou empresas em zonas rurais, estão os pardais. A empresa executa trabalhos do Norte ao Sul do país, para autarquias e outras entidades públicas, hospitais, dioceses, instituições privadas, espaços industriais, comércios e residências. A maioria dos clientes acaba por utilizar métodos dissuasores, seja por efeito mecânico ou sonoro. Escolha não falta: sistemas que lançam impulsos elétricos, espigões, taças com enxofre, gel repelente, sistemas de som (ou ultrassons impercetíveis ao ouvido humano) que emite som igual ao de aves predadoras, entre outros.

"O dos sons funciona melhor para gaivotas e pardais, os pombos habituam-se mais facilmente e voltam", especifica João Pereira. Claro que a escolha do sistema depende de muitas coisas. Da fatura que o cliente está disposto a pagar, é certo, mas também do local em causa, efeito desejado e estética (o impacto visual que a aplicação do sistema possa ter). Dissuadir as aves de frequentarem um determinado local é tarefa que pode não sair barato. A CED, por exemplo, prepara-se para instalar espigões num muro (83 metros quadrados) da Rua Damasceno Monteiro, na freguesia da Graça, Lisboa. "Este é o método mais barato mas eficaz. Não pode ser usado em qualquer lado, como em zonas de edificação. Mas como o muro tem 15 metros de altura, não se veem os espigões e não se coloca o problema estético porque não são visíveis", explica João Pereira.

José Teixeira, coordenador do gabinete de comunicação do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), no Porto???

Que problemas acarreta o excesso de aves nas urbes?

O problema das gaivotas prende-se com o comportamento agressivo que podem ter na altura da nidificação, para defenderem os ninhos e crias; a presença de bactérias multirresistentes identificadas nas fezes de gaivotas, que pode constituir um grave problema de saúde pública; e a deterioração que os excrementos de gaivotas e pombos podem provocam em edifícios históricos.

O CIIMAR analisou o caso há alguns anos. O que está a ser feito agora para estudar a situação?

Neste momento há uma proposta feita pelo CIIMAR aos municípios da Frente Atlântica da Associação de Municípios do Porto para a realização de um novo estudo da situação das gaivotas na cidade do Porto, que serviria para conhecer a evolução da população nos últimos seis anos e estudar em maior profundidade os seus padrões de nidificação, movimentação e alimentação na cidade.

Porque é isso importante?

Apenas conhecendo a dimensão e evolução do problema, os locais com maior densidade de aves, ninhos ou locais de alimentação, se poderá atuar em conformidade e definir medidas de gestão adequadas. Apesar de aparentemente a população de pombos causar bem menos impactos do que as gaivotas e ter vindo a diminuir nos últimos anos, provavelmente devido à presença das gaivotas, que competem pelo alimento e podem predar pombos jovens e adultos, não são conhecidos estudos sobre esta espécie no Porto.

Que medidas são necessário implementar?

Este é um problema muito complexo, pois a disponibilidade de alimentos e locais de reprodução é muito alta e difusa por toda uma área, sendo difícil e muito oneroso atuar em todo o território e impossível resolver uma única vez este problema. (Por exemplo, através de medidas para afugentar estes animais dos lixeiras a céu aberto ainda existentes num raio de 40 km e da lota de Matosinhos) e para controlar a reprodução das reproduções nas regiões, através de exemplo de equipas especializadas que subam a ninhos e façam uma substituição dos ovos, de forma a evitar, pelo menos, que o problema continue um crescer e se torne insustentável.