JN Urbano

Calma induzida pela pandemia nas cidades faz repensar turismo

Calma induzida pela pandemia nas cidades faz repensar turismo

Depois de nos últimos anos, responsáveis e populações dos grandes destinos europeus se terem revoltado contra o excesso de visitantes e exigido políticas que controlassem o caos urbano, o vazio deixado pela covid-19 dá o mote para medidas que permitam um "novo começo" mais sustentável.

Há um ano, havia semáforos em Veneza para controlar o acesso de turistas, enquanto ao Coliseu de Roma acorriam diariamente 20 mil visitantes. Em Paris, para subir à Torre Eiffel e evitar longas esperas, aconselhava-se a compra de bilhetes com pelo menos três meses de antecedência. Hoje, em pleno verão, o panorama mudou radicalmente nas principais cidades europeias. A covid-19 afastou as multidões dos principais destinos que, apesar de uma tímida recuperação durante este mês de agosto, continuam quase vazios. Uma realidade que deixa sentimentos opostos entre as populações. De um lado, o desespero dos que viviam dos negócios à volta do turismo, de hotéis a restaurantes ou estabelecimentos de diversão, do outro, os habitantes das zonas residenciais que exultam com a "tranquilidade" que voltou às suas ruas e pedem que esta seja a oportunidade para repensar modelos e fixar regras de modo a que, no pós-pandemia, se consigam evitar os excessos anteriores.

O caso de Itália é ilustrativo. As grandes cidades turísticas transalpinas perderam este ano, devido à pandemia, 34 milhões de visitantes, o que representa uma quebra nas receitas de 7600 milhões de euros, segundo um estudo realizado pela associação de comerciantes Confersercenti. Para perceber melhor a alteração, atente-se no Coliseu de Roma, o monumento mais visitado no país. No dia da reabertura, em junho, teve apenas 300 reservas, quando a média diária era de 20 mil.

Amesterdão, capital da Holanda, espelha, por outro lado, o contraste entre os que anseiam pelo regresso das multidões e os que se regozijam pela descida acentuada do número de visitantes. Numa cidade onde vivem cerca de 900 mil pessoas, mas que no ano passado recebeu 19 milhões de visitantes, a oportunidade de viajar pelas ruas do centro, junto aos famosos canais, sem ter de andar aos encontrões, encanta os moradores. Alguns dizem mesmo que só agora voltaram a descobrir zonas que antes estavam completamente "tapadas pelas multidões". Já os donos de bares e lojas de recordações lamentam quebras nas receitas que chegam aos 90%.

Exemplo evidente de "libertação" é o de Dubrovnik, uma das cidades mais visitadas da Croácia, e onde a "Cidade Velha" era até ao ano passado palco de jornadas caóticas pela afluência diária de turistas, em grande parte alimentada pelos passageiros de cruzeiro. Agora, com a covid-19, a vista deslumbrante sobre as ruas amuralhadas encanta os poucos visitantes.

Outros casos de contraste abrupto são Santorini, na Grécia, Bruges, na Bélgica, Paris, em França, Londres, no Reino Unido, ou Barcelona, em Espanha. Em todas estas cidades discutiram-se, nos últimos anos, medidas para afastar as multidões dos centros históricos. Aumentaram-se as taxas turísticas, limitaram-se os cruzeiros e proibiu-se a exploração de mais unidades de alojamento local. A chegada do novo coronavírus parece ter vindo ao encontro destas pretensões, ainda que de uma forma bem mais drástica e dramática que alguém imaginou.

A realidade é que muitos dos responsáveis por estas e outras cidades estão a aproveitar a calma induzida pelo coronavírus neste verão para imaginar uma indústria turística mais sustentável.

"O coronavírus mudou o Mundo", resume Paola Mar, responsável pelo planeamento e gestão do turismo no Município de Veneza. "É uma oportunidade para nós, um acelerador de mudança", conclui

Outras Notícias