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Capela foi refúgio para evitar inferno dos incêndios

Capela foi refúgio para evitar inferno dos incêndios

Oficial de segurança da aldeia é funcionário do café e já tem a lista com casas numeradas.

O tempo passa devagar em Vilar de Suente, Soajo. O relógio da capela de Santo António está parado há meses e só o altifalante no café da aldeia lembra que as horas correm. Com 53 moradores, este lugar da freguesia de Soajo é uma das povoações prioritárias no projeto "Aldeia segura, pessoas seguras". Pela única e estreita rua de acesso ao lugar já é possível ver a sinalética a indicar como local seguro o Largo da Ermida, onde estão o café e a capela.

Na verdade, a aldeia já testou a segurança do largo, há dois anos, na vaga de incêndios que afetou o Alto Minho. Cercada pelo fogo, a população encontrou dentro da capela o refúgio ao inferno das chamas. Rosa Capela, Maria Fidalgo e Joaquim Fernandes aguardaram o inferno passar virados para Santo António. Recordam o calor e fumo imensos em horas que pareceram dias. Esta terça-feira, o sino da capela vai voltar a tocar e, através do altifalante, Carlos dos Santos vai avisar a população para se juntar frente ao café. Será a estreia de Carlos na função de oficial de segurança da aldeia. Com 38 anos, este ex-emigrante é funcionário no café e conhece todos os habitantes. Ser oficial de segurança é um cargo voluntário e não hesitou.

Facilmente se percebe que os populares reconhecem em Carlos uma pessoa de confiança. Na sua posse, já tem a listagem da população e mapas com as casas numeradas. Em breve vai receber um kit de primeiros socorros e de bens essenciais. Convencer as pessoas a abandonar as casas é a principal dificuldade que admite enfrentar.

A luta por outra via de acesso (e fuga) à aldeia há muito que é reclamada. "Fazer simulacros é bom, mas a nossa principal prioridade é darem-nos outra saída da aldeia", defende o oficial de segurança. António Esteves, ex-emigrante com 84 anos, conta que já andou com topógrafos a estudar outra estrada para o lugar. "É preciso haver vontade política para se fazer", atira. "Este ano, já não temos muito mais para arder, já ardeu tudo", diz, em tom de lamento.