Pandemia

Como as cidades se estão a adaptar à reabertura

Como as cidades se estão a adaptar à reabertura

Após a "hibernação" ditada pela pandemia, desde esta segunda-feira, que há mais lojas abertas, mais gente e mais transportes nas ruas. Há um reforço geral das limpezas, mas a "chave" do sucesso está na conduta dos que estão a voltar a uma realidade urbana que não é a mesma que deixaram há mês e meio

De forma gradual, o país iniciou o regresso à normalidade esta segunda-feira, depois da "hibernação", ditada pela pandemia de Covid-19. Nos últimos dias antes do desconfinamento, foram várias as operações de desinfeção, sobretudo em escolas, transportes e espaços públicos, a preparar o regresso da população ao trabalho. Mas, sobretudo nos grandes meios urbanos, este procedimento não garante a proteção do contágio, porque, conforme alertam especialistas ouvidos pelo JN Urbano, não há garantia de que os agentes químicos, sobretudo se aplicados ao ar livre, sejam resistentes a fenómenos como a chuva, o sol ou as variações de temperatura. Assim, a adoção de uma conduta individual correta é o meio mais seguro para o regresso com êxito ao "novo normal".

Máscaras obrigatórias nos transportes públicos - cuja lotação foi reduzida a dois terços - parques infantis (ainda) fechados na maioria dos casos, marcas no chão para assinalar distâncias e muitas, muitas limpezas de ruas, passeios, e equipamentos públicos. No caso dos transportes há ainda medidas inovadoras, como máquinas de "vending" que disponibilizam material de proteção para a Covid-19, como máscaras e álcolgel . Já quanto ao regresso do estacionamento a pagar, não foi possível obter confirmação de data da Câmara do Porto, e, em Lisboa a EMEL limitou-se a afirmar que "está em articulação com a Câmara" para definir a a reativação dos parquímetros.

É este o cenário prometido para os próximos tempos nas cidades. Mas, de médicos a autarcas, passando por ambientalistas, ou mesmo responsáveis por empresas especializadas em desinfeção, a opinião é unânime: ninguém se pode fiar apenas nas medidas de proteção geral.

Neste contexto, assume relevância o facto de a desinfeção não ser, por si só, garantia. Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, destaca que este procedimento em espaços que estiveram fechados durante um mês nem faz muito sentido. "Mesmo que na altura do fecho estivessem contaminadas, agora não estão", justifica. Aconselha sim que haja "higienização mais frequente desses locais, particularmente nas superfícies que são de maior contracto, como é o caso das maçanetas, teclados quando partilhados, interruptores, etc.". Quanto às ações de desinfeção, que foram sendo intensificadas na última semana, diz que só poderão fazer sentido "eventualmente num espaço em que haja um doente", e garante que não vê vantagem na adoção deste procedimento "por defeito" para a reabertura de espaços.

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Uma opinião corroborada por Daniel Oliveira, diretor técnico em Portugal da Rentokil Initial, uma multinacional especialista em desinfeções. "A desinfeção é uma foto do momento. É válida na hora em que é feita", explica, acrescentando que, apesar de haver alguns produtos com testes laboratoriais que dizem aguentar até 30 dias em superfícies, não sabe "até que ponto é possível garantir que não haverá uma nova contaminação, sobretudo quando se trata de locais de muita passagem e sujeitos à chuva, ao sol e às variações de temperaturas".

Já no que toca a transportes públicos, Daniel Oliveira tem outra visão. "Aí presume-se que um produto que apresenta algum tipo de residualidade se mantenha muito mais estável, porque não é lixiviado, possibilitando que a substância ativa não se degrade com a mesma facilidade", observa.

O médico Ricardo Mexia reforça a necessidade da "adoção de comportamentos que vão ter de perdurar no tempo" e concorda que "as cidades não vão ser as mesmas que deixámos há mês e meio". Sustenta, por isso, a necessidade de apostar em "sistemas de informação robustos que nos permitam perceber se está tudo a correr dentro do que seria expectável ou se vamos ter de corrigir algumas medidas".

Do ponto de vista das autarquias, o fomento e, sobretudo, o controlo das boas práticas deve ser a opção, ainda que as incertezas relativamente ao novo coronavírus obriguem a que haja uma capacidade constante de regular e alterar. "É um navegar à vista", resume ao JN Urbano Marco Martins, presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil (CDPC) do Porto e autarca de Gondomar.

O responsável destaca a necessidade de "monotorizar o que serão as novas movimentações" para se poder atuar em função das realidades. Uma flexibilidade que, aliás, tem sido habitual desde o início da pandemia. "Às vezes estamos a reunir e a tomar decisões às duas da manhã para as implementar às oito", sublinha. Sobre o papel das autarquias, no caso de Gondomar, Marco Martins diz que vai reabrir os passadiços e afetar agentes da Polícia Municipal ao controlo da lotação dos transportes públicos, em colaboração com a PSP e a GNR. Já os parques infantis não vão, para já, reabrir.

Apesar das ondas de choque que agitam o Mundo, a pandemia acabou por trazer benefícios para o ambiente nas cidades. Para Samuel Infante, da Associação Quercus, algumas destas práticas deverão ser mantidas, até porque, sublinha, "uma parte da sociedade ficou bem mais sensibilizada para optar por soluções ecológicas e consumos mais responsáveis".

O ambientalista espera, por isso, que o retomar da atividade não signifique voltar a encher as cidades de automóveis e aponta as lições que devem ser retiradas. "Alguns setores perceberam que é possível o recurso ao teletrabalho. Se essa for a opção de muitas empresas, diminuirão as deslocações nas cidades, muitas delas desnecessárias, e evitam-se maiores emissões de CO2, ao mesmo tempo que se retira a pressão dos transportes públicos", conclui

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