Devolver os "fantasmas" às cidades

Devolver os "fantasmas" às cidades

Edifícios e terrenos abandonados passam muitas vezes desapercebidos aos transeuntes, mas podem revelar histórias e pessoas que marcaram a vida nas cidades. Um grupo de investigadores está a estudar esta realidade

As cidades estão cheias de locais abandonados, desde velhos edifícios a grandes lotes de terreno. Em muitos casos, as populações habituaram-se de tal forma a conviver visualmente com estes exemplos, que, na rotina do dia a dia, já ninguém repara neles. Alguns são aproveitados para fins menos lícitos, mas há também quem os utilize para expressar formas de arte, ou para diversão radical. Em comum, todos estes locais "fantasmas" são marcados por histórias da própria cidade e das gerações que a habitaram.

Só em Lisboa, há 2172 espaços em ruínas e 771 terrenos sem utilização. Os números são avançados pelo projeto Novoid, que está a ser desenvolvido por uma equipa de geógrafos, arquitetos e arquitetos paisagistas da Universidade de Lisboa e da Universidade do Minho, e é financiado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia. "Uma das coisas que mais me surpreenderam foi a invisibilidade dos espaços abandonados. O olho humano habitua-se a estes e, às tantas, não tem consciência da existência dos mesmos", refere ao JN Eduardo Brito-Henriques, principal investigador e coordenador do projeto.

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Na impossibilidade de analisar todo o território nacional, o Novoid escolheu quatro cidades, duas no Norte (Guimarães e Vizela) e duas mais a sul (Lisboa e Barreiro). No critério de seleção o facto de todas terem perdido população no período entre os últimos dois censos nacionais (2001-2011). Essencialmente, o estudo aborda o modelo de desenvolvimento urbano seguido nas últimas décadas em Portugal, que conduziu a um crescimento descontínuo das cidades que deixou muitos terrenos vagos no seu interior. Por outro lado, conclui que novas formas de ruínas vieram juntar-se às mais tradicionais, tornando-se parte da paisagem urbana: fábricas abandonadas, quartéis desmantelados, cinemas encerrados, centros comerciais "mortos", empreendimentos ou imobiliários não terminados são alguns dos exemplos inventariados.

Para Eduardo Brito-Henriques, da análise destes espaços resulta que "há cidades escondidas dentro da própria cidade". Mais, o geógrafo considera que "há cidades esquecidas" nos territórios urbanos. Concretizando, revela que, no desenvolvimento do projeto, foi feito o exercício de estar numa rua a observar a movimentação dos transeuntes perante estes espaços abandonados. "As pessoas que passam não olham sequer para um edifício em ruínas. Porque se não há uma loja, ou não há gente a entrar e a sair, aquele espaço torna-se oculto", observa.

No entanto, os investigadores encararam uma realidade totalmente diferente quando abordam a vizinhança. "Estes espaços estão carregados de memórias", assegura o coordenador do Novoid. "Quando interpeladas. as pessoas desatam lembranças do tipo isto agora está assim, mas quando eu era miúdo servia para isto ou para aquilo, viviam cá estas pessoas. Ou seja, todas as memórias começam a voltar ao de cimo" justifica. Encontrar utilizações para estes espaços desocupados é assim um dos grandes objetivos dos investigadores. No entanto, como sublinha Eduardo Brito-Henriques, estes locais, mesmo abandonados, "são frequentados por humanos". Edifícios devolutos são muitas vezes associados à marginalidade, como consumo e tráfico de droga. Mas o investigador e coordenador do projeto sublinha que os mesmos "não têm de ser necessariamente associados à delinquência".

E revela algumas das utilizações que acabam por surpreender. "Há pessoas que não têm casa e os utilizam como abrigo, mas há também quem os procure para atividades artísticas, como grafítis, exploração urbana (tirar fotografias e publicar nas redes sociais), ou outras mais radicais, como parkour, corrida de drones ou mesmo paintball", revela. Ao estudar todas estas realidades, o objetivo do Novoid é procurar soluções para devolver estes espaços às cidades, enquanto não há uma utilização final. Eduardo Brito-Henriques explica que todas as soluções previstas têm de obedecer a critérios. "Intervenções de baixo custo, que tenham um caráter efémero e sejam eficientes do ponto de vista ambiental", elenca.

Para o geógrafo, do ponto de vista do planeamento urbano, o grande desafio é precisamente pensar em arquiteturas efémeras e nos usos temporários para a cidade. "Normalmente, o planeamento urbanístico não pensa nisto. Preocupa-se em pensar em coisas que hão de ficar. Mas a cidade é transformação, é dinamismo e é mudança", justifica.

Em Sande São Clemente, Guimarães, uma antiga fábrica de talheres é o local preferido para jovens das escolas se juntarem, ignorando os riscos para a sua segurança. "Eles vêm quase todos os dias para fumar cigarros porque já os apanhei aqui e expulsei-os", refere uma vizinha. Aquele espaço já teve dois incêndios nos últimos dois anos. Não tem portas, pelo que qualquer pessoa consegue entrar. No interior há colchões, seringas, vidros e a robustez das paredes permanece duvidosa. "Não se veem toxicodependentes, mas é um perigo para os miúdos", acrescenta a vizinha, que assegura já ter alertado as autoridades para o problema. Apesar de abandonado, é um dos símbolos da indústria de cutelaria do séc. XX.

É um símbolo emblemático do concelho de Vizela pois resulta de uma luta de Armindo Faria, político e médico, pela autonomia da sua terra natal. Atualmente, o interior do "castelo" encontra-se degradado e em ruínas. Este imponente edifício conhecido como "castelo", de estilo neogótico, foi mandado construir no início do século XX por Francisco de Freitas Ribeiro de Faria com o objetivo de acolher os Paços do Concelho. O "castelo" esteve quase sempre nas mãos de privados. Primeiro foi um cinema, depois o Externato de Vizela e, por fim, foi casa de habitação social. Recentemente foi adquirido pela Câmara de Vizela para ser a biblioteca municipal, um auditório e um centro museológico.

Duas vilas centenárias, mandadas construir pela herdeira de um emigrante no Recife, Brasil, marcam a paisagem do troço final da Estrada de Benfica, já no limite da capital. Da Villa Ana (1890), e da Villa Ventura (1910) restam ruínas e vegetação selvagem. Um contraste gritante com um passado de esplendor da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX. Na Villa Ana chegou a viver, por exemplo, António de Spínola, primeiro presidente da República após o 25 de Abril, ou o escritor Luiz Pacheco. Já na Villa Ventura, morou a escritora Maria Lamas. Este conjunto arquitetónico é talvez o último testemunho que resta numa zona da cidade toda ela já tomada por prédios de razoável dimensão.

No Barreiro, um terço da área urbana é ocupada por terrenos desocupados. A raiz histórica do fenómeno está inteiramente concentrada na herança industrial daquela cidade da margem sul do Tejo, onde no século passado funcionou uma das maiores fábricas de Portugal: a Companhia União Fabril (CUF). Nascida nos finais do século XIX, rapidamente alargou a sua produção a indústrias tão diferentes como produtos químicos, o tabaco ou a construção naval. O modelo económico de grande concentração industrial entra em declínio na década de 70, o que acaba por acentuar-se fortemente após o 25 de Abril, com a nacionalização. Com o desmantelamento do complexo, restam até hoje terrenos e edifícios sem uso.

Em pleno centro do Porto, os muros de cimento tapam aquilo que parece escapar ao olhar da maioria das pessoas. Pelas ruas da Invicta, muitos são os portões que escondem enormes terrenos abandonados. E muitas são, também, as histórias que quem lá morou durante toda a vida tem para contar. No coração de Cedofeita, a saída dos moradores, "que foram sendo realojados por falta de condições, fez com que as casas e os terrenos fossem ficando cada vez mais vazios". A observação é de António Fonseca, presidente da Junta de Freguesia do Centro Histórico do Porto, e faz referência a espaços de "mais de 1000 metros quadrados" que estão, "há décadas, sem ninguém".

No quarteirão da Rua dos Burgães, em Cedofeita, os poucos moradores que resistiram sabem de cor as histórias escondidas por detrás dos blocos de cimento. "Ali, chegou a ser uma grande fábrica", referiu Rubim Silva, 76 anos, apontando para um grande terreno e recordando o tempo em que o quarteirão "tinha muita gente e muita vida". Alguns metros mais abaixo, o caso repete--se, num outro terreno abandonado. E o morador depressa partilha "as histórias" que conhece sobre aquela que foi, em tempos, "uma grande quinta". Com o passar dos anos, "os campos deixaram de ser cultivados" e seguiu-se o abandono. "Há mais de três décadas, "comentava-se que ia ser um polo judicial, mas nunca chegou a ser construído qualquer edifício", disse o morador, acrescentando que "o terreno é atravessado por uma mina e há quem diga que esse poderá ser o motivo" que impede a construção. Para o presidente da Junta, "o Porto tem, atualmente, demasiadas ilhas, casas e terrenos ao abandono". Espaços que, em pleno Centro Histórico, têm "um grande potencial".

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