Exercício físico solitário tira atletas das ruas das cidades

Exercício físico solitário tira atletas das ruas das cidades

Há menos gente a praticar desporto ao ar livre. Estudo mostra que muitos treinam agora em casa e os parques de lazer estão mais vazios. Ainda assim, há quem não dispense o treino diário com medidas de proteção. Medo da covid, provas canceladas e ginásios fechados condicionaram bons hábitos.

São dez da manhã de terça-feira no parque da ponte de Braga e José Ribeiro, 69 anos, reformado, é o único a dar voltas à capela em passo de corrida. No rosto leva a viseira que o acompanha para todas as atividades ao ar livre desde abril. Sente-se mais seguro assim, mas à volta ninguém está a treinar.

Numa primavera ou verão normais, qualquer dia e hora eram propícios a encontrar desportistas no parque da ponte. Com a pandemia, desapareceram quase todos. "Há muito menos gente a correr e há muitas pessoas que só correm nos locais próximos de casa, nos bairros", constata o bracarense.

As zonas das cidades mais propícias à atividade desportiva informal, como os parques de lazer ou ecovias, foram substituídas pelas atividades dentro de casa, o que levou a uma diminuição generalizada da prática desportiva. Esta constatação está plasmada no estudo ibérico sobre a intensidade e frequência dos treinos ao ar livre, conduzido em Portugal pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

No nosso país, foram inquiridos mais de 2300 praticantes de exercício físico regular e 75% dizem que estão a treinar menos do que antes, sendo que 14% deixaram mesmo de praticar. O medo do contágio, o cancelamento das provas de grupo e o encerramento dos ginásios e dos circuitos de manutenção física dos parques de lazer estão entre os fatores que mais contribuíram para a diminuição da atividade física.

José Ribeiro comprova-o: "No princípio, não havia ninguém na rua, nem à noite. Do centro da cidade até aqui nem passava por uma mão-cheia de pessoas e todos se desviavam".

O bracarense é um dos organizadores do "Braga a Correr", um evento semanal de running que juntava mais de 100 atletas informais na rua e foi suspenso quando a Direção-Geral da Saúde proibiu ajuntamentos com mais de 20 pessoas. "Deixei de treinar em conjunto ou em grupos, mas há o problema do social, que também faz falta. Tenho colegas meus que às vezes telefonam e a gente encontra-se só para conversar um bocadinho", confessa.

Dos mais de 100 companheiros de corrida que via todas as segundas-feiras, alguns já não vê há dois meses, mas José anda sempre por ali. Entre treinar de viseira e não treinar por medo, o reformado escolhe sempre a primeira. É tudo uma questão de confiança, ou neste caso de desconfiança do próximo, pois nunca sabe quando vai passar por alguém infetado e a viseira sempre o protege sem grande desconforto. "Sua-se ligeiramente mais, há uma temperatura maior na zona da cara, mas de resto é como se não tivesse nada e não embacia absolutamente nada", refere.

Quando falamos em atividade física ao ar livre, o running e o trial running reúnem mais de 75% das preferências, seguidos do BTT, com 6,5%. Ainda assim, o impacto negativo causado pela covid-19 foi generalizado e o número de provas canceladas ou suspensas abarcou todos os tipos de desporto.

O estudo da Universidade Nova demonstra que mais de 90% dos atletas informais tiveram competições canceladas e que, em média, cada um foi afetado com o cancelamento de 2,2 provas. A consequência disto, para além do esvaziamento dos espaços de lazer das cidades, foi a diminuição da capacidade física de 80% dos praticantes e a quebra na capacidade técnica de 73%.

Para estes números também contribuiu o encerramento das academias e ginásios, em meados de março. O setor reabriu a 1 de junho praticamente sem clientes e só no dia 13 é que a DGS autorizou o uso de chuveiros. "Para alguns, talvez 20% ou 30%, só a vacina ou um medicamento vão devolver a confiança", denota José Carlos Reis, presidente da Associação de Ginásios e Academias de Portugal (AGAP).

Ainda assim, ao contrário do que se esperaria, os sinais até são animadores para os ginásios. Para a maioria, a confiança perdida num mês e meio de confinamento parece estar a erguer-se aos poucos e, "de dia para dia, a percentagem de pessoas a praticar nos clubes tem aumentado significativamente", revela o dirigente associativo.

Durante a pandemia, muitos optaram por treinar em casa, online, como comprova o crescimento exponencial de halteres, tapetes e outros artigos para a prática de desporto constatado por marcas como a Netshoes, que subiu cerca de 2000% a venda destes produtos. A realidade, contudo, vai ser temporária, antevê José Carlos Reis: "O exercício online existe nos Estados Unidos e na Europa há cerca de 20 anos e nunca teve expressão porque é pouco friendly, é muito plástico e não tem a adaptabilidade da relação social. Somos sempre nós em frente a um monitor".