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Há cada vez mais artistas a dar música ao Centro Histórico de Braga

Há cada vez mais artistas a dar música ao Centro Histórico de Braga

Entre o Arco da Porta Nova e a Avenida da Liberdade, sobretudo aos fins de semana, florescem espetáculos que chamam a atenção de quem por ali passa. Há quem queira apenas partilhar a sua arte, amealhar uns trocos, ou até financiar viagens para missões cívicas em defesa dos direitos humanos.

Passear pelo Centro Histórico de Braga ao fim de semana é, quase sempre, entrar numa espécie de concerto a céu aberto, sem, obrigatoriamente, precisar de pagar bilhete. Entre o Arco da Porta Nova e a Avenida da Liberdade há espetáculos de cada vez mais artistas de rua que não exigem, mas agradecem, as gratificações de quem se deixa apaixonar pela sua música. Para alguns, ver as crianças felizes já significa ganhar o dia.

Divorciado e com os três filhos na Alemanha, o romeno Iroftei Alísar, 40 anos, diz que vê o acordeão como um dos seus "melhores amigos". Foi-lhe oferecido quando se separou da mulher, há três anos, e desde aí tornou-se inseparável do instrumento. Autodidata, decidiu há dois anos ir para as ruas do centro de Braga "tocar música para os outros" e até tem reportório para crianças, que lhe minimizam as saudades da família. "Não venho pelo dinheiro que ganho", afirma Iroftei, com as mãos marcadas pelo trabalho na recolha do ferro velho, a sua atividade principal.

Aos fins de semana, as suas atuações junto à Igreja da Misericórdia podem valer-lhe entre "10 e 15 euros" por dia. Não se queixa. Quer é "saudinha" e continuar a fazer parte da memória dos turistas. "Muitos fazem fotografia comigo. Fico feliz", frisa o romeno, que sonha vir a tocar com o Quim Barreiros, a sua referência. "Aprendi sozinho, mas já estou preparado para tocar com grandes músicos", garante.

João Paiva, 23 anos, também tem uma bagagem cheia de sonhos e é na guitarra que os pais lhe deram, aos 14 anos, que se apoia para conseguir concretizar o primeiro grande objetivo de vida: uma missão ativista no estrangeiro. Natural do Porto, traz, sobretudo aos fins de semana, Zeca Afonso e Bob Dylan para a Rua do Souto, em Braga, porque foi aqui que, em 2018, encontrou as condições certas para fazer dinheiro com o seu talento, que lhe permitirá depois viajar para lutar por causas como a exploração laboral em países asiáticos.

"Esta rua é suficientemente estreita e silenciosa para que a acústica funcione. E as pessoas que vêm passear a Braga são especiais. Não há muitos turistas, mas os que vêm gostam de parar e, para um músico que quer ser ouvido, é fantástico", descreve o jovem, assumindo que não se conseguiu enquadrar no ambiente frenético que se vive na sua cidade. "No Porto deveria ganhar mais, porque há mais movimento, mas as minhas experiências não foram muito boas, porque a cidade vive um pulsar muito intenso. As pessoas andam muito rápido na rua, há muita abstração, muitos músicos. É uma correria que desvaloriza aquilo que estamos a fazer", constata, de boina na cabeça e sorriso tímido, encostado a um canto, como que querendo passar despercebido, entre dezenas de pessoas que vão passando.

Licenciado em História e Direito, João Paiva não esconde que está ali aliciado pelo dinheiro que poderá angariar para a sua viagem. Não vê a rua como futuro, mas "adora" o que ali vai vivendo. "Sou um pouco egoísta a fazer isto, porque estou a tocar para mim e da forma como quero que saia. Mas, de repente, abro os olhos e há pessoas paradas e que se sentem bem com o que estou a fazer", desabafa o artista, que à guitarra junta a sua voz melodiosa. E dá frutos. "Já fiz 127 euros numa tarde prolongada", confidencia.

Mateus Paraíso, um baterista de 61 anos, também destaca a "generosidade" dos visitantes de Braga. Este músico profissional chega a ganhar entre 40 e 50 euros por dia. É, também, o dinheiro que o alicia a vir há uma década para o Centro Histórico. "Morava em Priscos e, no inverno de 2010, estava sem trabalho. Um amigo que é artesão e trabalhava aqui na rua desafiou-me a vir tocar. Comecei a vir todos os dias e gostei muito", recorda o brasileiro radicado em Portugal há 20 anos. Conta que, durante o verão, continua a estar com a agenda preenchida de espetáculos em hotéis, casinos e outros locais. "São 40 anos de música. Mas ainda vale a pena vir para a rua. Os pequeninos ficam impressionados com a bateria", afirma o artista, enquanto arruma o instrumento, depois de mais uma tarde de exibição.

O vereador com pelouro do Espaço Público da Câmara de Braga, João Rodrigues, valoriza a atividade destes artistas, mas alerta para a necessidade de licenciamento para ocupação do espaço público, o que não tem acontecido. O responsável adianta que se trata de uma taxa de apenas 18 euros por mês que permitiria que cada um garantisse "jurisdição" sobre um lugar da cidade para tocar, evitando futuros constrangimentos devido à possível intensificação de artistas, como já acontece nas principais cidades portuguesas, Porto e Lisboa

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