Sociedade Civil

A Filarmónica centenária de Lisboa que fintou o destino

A Filarmónica centenária de Lisboa que fintou o destino

Coletividade celebrou recentemente os 123 anos e inaugura este sábado a sua renovada sede, graças a um protocolo assinado com a Junta de Freguesia de Santo António. Clube esteve condenado a acabar, mas o desporto e cultura estão de volta à Rua da Fé, bem no coração de Lisboa, paredes meias com a cosmopolita Avenida da Liberdade.

Até há pouco tempo, a Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro parecia ter o destino traçado: fechar definitivamente as portas da sua sede, no número 46/A da Rua da Fé, ali mesmo ao lado da cosmopolita Avenida da Liberdade, no coração de Lisboa. Com as instalações visivelmente degradadas e vazias de gente, havia pouco a esperar. Até que, "numa conversa de pequeno-almoço, com o presidente da Junta de Freguesia de Santo António, Vasco Morgado, surgiu a hipótese de uma colaboração que nos permitiria retomar atividades abandonadas há anos", explica o presidente, Nuno Santos. O dirigente, de 37 anos, cresceu ali e lembra-se dos tempos áureos em que aquele era o único local de convívio da zona. "Os vizinhos reuniam-se aqui todas as noites após o jantar. Alguns só para ver televisão, que era coisa que muito pouca gente tinha em casa", recorda.

Fundada a 3 de março de 1896, a João Rodrigues Cordeiro foi também berço de artistas e atletas, que fizeram carreira. Além da filarmónica, ali cantava-se o fado, jogava-se pingue-pongue, bilhar e fazia-se teatro de revista. "Alguns nomes atravessaram a avenida e foram para o Parque Mayer", recorda Vasco Morgado.

Uma visita guiada às instalações da coletividade é também revisitar Lisboa de outros tempos, em que havia um acérrimo bairrismo e um espírito de vizinhança ímpar. "A televisão era o grande atrativo. Até o governador civil veio cá inaugurá-la", recorda Henrique Esteves, secretário da Direção. Foi ali que muita gente se conheceu nos bailaricos ao ar livre e que muitos casais se formaram. Ouvia-se os relatos dos campeonatos do Mundo de Hóquei em Patins, nos anos áureos da modalidade, vibrava-se com o Festival da Canção, e assistiu-se à chegada do homem à Lua. "Foi muito graças a isto existir que alguns jovens evitaram trilhar maus caminhos", observa Henrique Esteves.

Nos últimos 20 anos, quando começaram a falecer os sócios mais velhos e muita gente se mudou para a periferia da cidade, o clube foi perdendo fulgor. Há um ano estava parado e o destino parecia inevitável, mas a irreverência da nova Direção, composta por gente jovem, ditou o contrário.

O protocolo com a Junta - que gastou 50 mil euros nas obras - permitiu recuperar a sede, que vai ser reinaugurada este sábado, e retomar atividades como o boxe, o ballet, esgrima, guitarra e bateria. "O clube era património do bairro, tínhamos de o devolver ao bairro", justifica Vasco Morgado. Na sede, a Junta vai ter ainda um espaço cedido para apoio escolar aos jovens da freguesia.