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A pegada que Almeida Garrett deixou no Porto

A pegada que Almeida Garrett deixou no Porto

O escritor com quem a cidade do Porto manteve uma relação de quase amor-ódio durante o século XIX é hoje consensual. Originário de família influente, a sua marca pode ser encontrada com facilidade no que resta do património que lhe foi próximo e pelas homenagens que eternizam o seu nome e figura.

A madrugada do passado dia 27 de abril testemunhou um incêndio que deixou praticamente irreconhecível o local de nascimento de umas das (hoje) figuras gradas do Porto: o escritor Almeida Garrett (1799-1854). Situado na Rua Barbosa de Castro, próximo do Passeio das Virtudes, no centro histórico, o edifício encontrava-se devoluto, depois de anos em que para ele foram pensados vários projetos mas em que nenhuma realidade o tirou do abandono. A própria Câmara do Porto, que em 2007 recusou que o imóvel fosse transformado em hotel de charme, anunciara, um mês antes do fogo, a intenção de instalar no local o futuro Museu do Liberalismo, causa tão grata ao autor de "Viagens na minha terra", "Frei Luís de Sousa" ou "Catão".

Além da casa onde nasceu e viveu parte da infância, restam pelo Porto marcas vivas da influência que o escritor deixou numa cidade que nem sempre lhe reservou relação pacífica, sobretudo em vida. Como o atual Colégio Universal, na Rua da Boavista, propriedade da família Garrett. "Era para onde Almeida Garrett gostava de ir exibir-se a cavalo para impressionar as primas. Numa dessas ocasiões caiu, fez um golpe profundo na cabeça e, a partir de então, passou a usar peruca que lhe ficou célebre", conta Germano Silva, jornalista e historiador-mor sobre o Porto.

A Igreja de São Lourenço, ou dos Grilos, na Sé, é outros dos pontos emblemáticos que testemunha a história de Almeida Garrett no Porto. Durante o cerco de um ano movido pelas tropas absolutistas de D. Miguel aos liberais liderados pelo futuro D. Pedro IV, entre 1832 e 1833, Garrett foi um dos homens que se refugiou naquele regimento militar improvisado e que de lá resistiu às investidas inimigas. "Fez parte do chamado Regimento Académico e, após a vitória liberal, redigiu o decreto que estabeleceu a introdução no brasão da cidade do coração de D. Pedro", descreve Germano Silva.

Regressou depois a Lisboa e deixou um Porto que, em carta posterior a um amigo, classificou de aldeão. Um epíteto que não caiu bem, tornando-o praticamente persona non grata. "Essa definição desagradou a muita gente e custou-lhe, inclusive, a eleição de deputado pelo círculo local em eleições às cortes", lembra o historiador. Tal episódio foi a gota de água de uma ligação pouco pacífica entre a generalidade de uma cidade que "não lhe apreciava o aparato estético", o estilo quase dandy, a petulância traduzida, por exemplo, "na mala que sempre transportava consigo carregada de escovas e produtos para o cabelo."

Apesar de tudo, o tempo foi juiz na reconciliação entre o Porto e Garrett. Depois da sua morte, em 1854, multiplicaram-se as homenagens que o perpetuaram no espírito tripeiro, sobretudo a partir do século XX. Exemplo maior é o imponente monumento que impera defronte dos Paços do Concelho. Esculpido em bronze por Salvador Barata Feyo - que também deixou estátua do escritor na Avenida da Liberdade, em Lisboa -, foi inaugurado em 1954, ano em que se assinalou o centenário da morte de Garrett.

Um pouco mais abaixo, junto à Estação de São Bento, foi dado o nome de Almeida Garrett à praça principal que acompanha a estrutura ferroviária. Quiseram, porém, os portuenses que deixasse, praticamente, de ser chamada pelo nome oficial e fosse denominada mais popularmente por praça de São Bento.

Já no arranque do século XXI, em 2001, e no âmbito da Porto Capital Europeia da Cultura, a mais recente biblioteca municipal foi batizada com o nome de Garrett, nos jardins do Palácio de Cristal.