Reportagem

A revolução low-cost está a chegar a todos os transportes

A revolução low-cost está a chegar a todos os transportes

Alugar um carro por um euro, partilhar boleias ou escolher entre autocarros e uma mota são novas propostas que alargam as opções para deslocações mais económicas. Depois das ligações aéreas terem iniciado, há uns anos, a tendência do baixo custo, o modelo está agora a alargar-se a mais plataformas.

Viajar entre cidades não tendo carro próprio, sem estar sujeito a horários e tarifas rígidas dos meios de transporte tradicionais deixou, de ser uma miragem, nos últimos anos, graças à quantidade de opções criadas para assegurar que ninguém deixe de ir onde pretende por não ter como se deslocar. A Portugal, esta revolução chegou nos finais da década passada com as companhias aéreas low-cost, mas o avanço do digital permitiu nos últimos dois anos alargar soluções a todos os meios de transporte. A mais recente é uma empresa francesa, que permite alugar um automóvel por um euro/dia. Mas há também cada vez mais sistemas de boleias online e até uma companhia de autocarros de baixo custo, que está a crescer fortemente no mercado nacional, apostando em rotas sem ligações aéreas na partida ou no destino.

A "DriiveMe" nasceu em França há oito anos e está em Portugal há ano e meio. A oferta de aluguer de automóvel a um euro surpreende e pode até despertar algum ceticismo, mas Augusto Macedo, responsável pela empresa no mercado ibérico, explica o conceito: "As rent-a-car têm necessidade de deslocar veículos de uma cidade para outra. Assim, um particular vai fazer essa ligação, pelo preço simbólico de um euro e a empresa tem um custo muito menor".

A DriiveMe nasceu de um estudo dos irmãos Constantin, Alexandre e Geoffroy Lambert sobre os custos das empresas de aluguer de automóveis no transporte de viaturas entre cidades. O conceito é simples. Através de uma aplicação para telemóvel, o cliente procura o trajeto que necessita (Porto-Lisboa, ou Lisboa-Faro são os mais frequentes), vê a data disponível e se esta não existir pode criar um sistema de alerta e ser notificado quando houver uma disponível.

"A partir daí, além de um euro de aluguer, só paga o combustível e portagens. O seguro contra todos os riscos está incluído", explica Augusto Macedo, acrescentando que, em Portugal, a plataforma conta já com mais de 30 mil clientes registados e desde novembro já foram assegurados mais de 50 trajetos. "Estamos com uma oferta de 500 a 600 viagens por mês e com um crescimento de 15% mensal", adianta o responsável.

Mas o conceito low-cost introduzido pelas companhias aéreas mexeu com todos os meios de transporte. A partir do momento que a Ryanair começou a disponibilizar viagens entre Lisboa e Porto mais baratas do que a CP, a empresa ferroviária viu-se obrigada a entrar na concorrência, com preços inimagináveis há uns anos. Há voos entre as duas maiores cidades portuguesas a menos de 20 euros e tarifas promocionais da CP que ficam por cinco euros, sob determinadas condições. Mais barato que uma viagem de táxi em hora de ponta entre a Ribeira até à Foz, na Invicta.

Também os autocarros de longo curso acompanham esta evolução. A FlixBus nasceu na Alemanha em 2013 e chegou a Portugal quatro anos depois. Permite ligações Porto-Madrid a menos de 20 euros, Porto-Vigo a partir de seis, ou Braga-Salamanca a 39.99 euros. " O modelo de negócios baseia-se em acordos de colaboração com pequenas e médias empresas locais de transporte, como a Ovnitur, de Ponte de Lima. O parceiro assegura a gestão da linha no dia a dia e nós tratamos da parte mais tecnológica como o planeamento das linhas, plataformas de vendas de bilhetes, marketing, apoio ao cliente, etc.", explica, ao JN Urbano, Pablo Pastega, diretor-geral da FlixBus em Portugal e Espanha.

Como atrativos, a empresa oferece serviços extra nas viagens. "Todos os nossos autocarros têm wi-fi gratuito, tomadas para carregar telemóveis ou computadores, espaço extra para as pernas e casa de banho. Também permitimos bagagem de mão", completa o responsável.

O mundo digital e as redes sociais vieram ainda abrir a possibilidade de os viajantes se organizarem entre si e dividirem custos. Primeiro, surgiu o Blablacar, em Portugal desde 2012, que organiza boleias partilhadas. Um esquema que inspirou diversos grupos no Facebook, como o "boleias: Porto-Lisboa ... e ... Lisboa-Porto!!". Aqui, o preço médio por pessoa ronda os 15 euros, sendo que a vantagem é também não ficar sujeito a horários rígidos.

Fernando Nunes da Silva, professor catedrático, especialista em mobilidade vê estas transformações como a "democratização" do acesso aos meios de transporte. "Progressivamente, vai haver uma racionalização dos transportes e a tendência é que a sociedade se vá encaminhando para este tipo de soluções", garante.

Nas cidades, a mobilidade vai também assumindo novas formas. Neste âmbito, a Europcar possibilita, desde há um ano, o aluguer de scooters ao mês. "É um serviço muito procurado por empresas, mas que também começa a ser pedido por particulares", adianta Nuno Barjona, responsável de marketing da rent-a-car.

O responsável destaca a maior vantagem para quem aluga. "Se houver uma avaria, ou necessidade de ir à revisão, nós mandamos outra moto e a empresa tem mobilidade garantida", explica. O aluguer mensal de uma scooter custa 270 euros. No verão, este é também um transporte muito procurado por turistas. A estes, a empresa cobra 25 euros por dia