JN Urbano

Ainda há quem prefira o rio à máquina de lavar

Lavar no Douro e estender roupa a secar continua a ser a forma preferida por algumas mulheres|

 foto Igor Martins/Global Imagens

Aurora Moreira tem máquina de lavar, mas garante que não há nada como lavar no tanque e estender a roupa ao sol|

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Rosa Dias foi lavadeira de profissão durante 40 anos. Quando casou, aos 22, retomou a profissão que a mãe deixou|

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No tanque da Sé ainda se estende a roupa com vista para a Ribeira. Para ajudar, está a porteira Antónia Bessa (à esquerda)|

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"A Afurada é linda!" Afinam-se as vozes no lavadouro da freguesia dos pescadores. "É bela mesmo defronte com a Afurada de cima e o bairro ao pé da ponte", cantam as lavadeiras em coro.

Diz-se que é bela e a verdade é que tem um lavadouro renovado que faz as maravilhas de quem o visita. Os turistas entram sem pedir licença a disparar fotografias em todas as direções. As protagonistas? São as lavadeiras da Afurada, Vila Nova de Gaia, que de manhã vendem peixe e à tarde lavam no rio.

Aurora Moreira é uma das dezenas de peixeiras que vão ao rio todas as tardes. Já lava desde pequena - aprendeu sozinha sob o olhar atento da mãe - e desde que vende peixe que vai ao tanque da Afurada: "Gosto mais de vir ao rio do que usar a máquina. A gente aqui distrai-se. Falamos umas para as outras, uma diz uma imposturice, outra diz outra, e convivemos todas juntas. É muito bom vir para o rio lavar".

O tanque é um museu vivo. Quem entra sente a diferença. O perfume do sabão azul e a frescura da água fria têm tanto de agradável como de eficiente. Não há nódoa que resista ao esfregar na pedra. "Lavar no rio é fora de série. Fica a roupa muito melhor, nem minga nem nada. Aqui a roupa fica sempre bonita", explica Aurora. Depois de lavada e torcida à mão, a roupa é deixada ao sol com vista para o Douro. Quase parece um postal. Revela uma tradição antiga que faz parte do dia a dia de quem vive na Afurada.

Do outro lado do rio, no coração do Centro Histórico do Porto, também se lava à mão. Quem não o conhece não dá com ele, mas o lavadouro da Sé prende a atenção de quem passa. São muitos tanques pequenos. Alinhados. Cada um com a sua torneira. Agora, está vazio. Mas fazia fila. "Antigamente não havia pias para toda a gente. Andavam ao barulho. Era bicha para acabarem umas e virem outras. Agora não, agora é mais calmo, já vem uma, vai embora, e depois já é capaz de ficar vazio. Mesmo assim acho giro porque ainda o procuram", conta Antónia Bessa, a porteira do tanque da Sé.

Antónia é quem tem a chave do lavadouro. É ela que abre o portão vermelho para que se possa lavar ali. Mas não há muita gente que o utilize. Usam-no "mais na época de verão, quando se refrescam as roupas". Quem dá valor, garante, são os estrangeiros. "Dão muito valor a isto, se calhar até mais do que nós aqui. Até ao domingo e à segunda, que eu estou em casa, vejo. Eles vêm e metem as máquinas por dentro das grades para tirar fotografias. Lá está, eles adoram isto", relata.

Os turistas que passam, e que param para apreciar a vista para o Douro, são surpreendidos. Olham, comentam, entram e apontam o telemóvel. Além da ponte, guardam o tanque numa fotografia.

Os mais atrevidos chegam mesmo a arregaçar as mangas. "Eu já tive aqui homens estrangeiros a lavar a roupa. Sentaram-se aqui, dormiram com as roupas estendidas a secar e depois meteram-nas na maleta para levar embora. Acaba por ser uma coisa mesmo útil, quer para nós quer para os estrangeiros", explica.

Rosa Dias, antiga lavadeira de profissão, esfregou 40 anos a roupa dos outros. Agora, na bacia, só leva a dela. Saía da Maia às 6 horas para ir ao Porto buscar roupa. A camioneta ia cheia, "da parte de cima do coberto ia trouxa para lá, trouxa para cá", explica. Quando chegava a Cedofeita, ia buscar roupa suja às "freguesas". Chegou a trazer "seis algibeiras de roupa para lavar".

"Elas pagavam-me muito bem. Metia o dinheiro na algibeira e vinha toda contente para casa. Vinha a contar o dinheiro e quando tinha muitas notas de 50 e 100 escudos trazia um rodo de dinheiro para casa. Uma trouxa podia render naquela altura cerca de dois contos. Era assim a minha vida", relembra Rosa Dias.

A ex-lavadeira, que herdou a profissão da mãe quando casou aos 22 anos, ainda hoje lava à mão. "Ainda sei lavar, ainda torço a roupa bem torcida. Quando fui para a minha casa nova, os meus filhos queriam comprar uma máquina de lavar, mas eu disse que enquanto tiver forças é ao rio que vou lavar", conta orgulhosa.

De bacia e escova na mão, é no rio que mata as saudades de outros tempos. Tempos que lhe ensinaram a profissão que agora ninguém quer aprender

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