SOS Floresta

Observatório JN: Monchique...E agora?

Foto LuÍs Forra/lusa

Quinze anos depois voltei à serra de Monchique. Em 2003, percorri durante alguns dias os caminhos do fogo que, nesse ano, dizimou uma das mais bonitas serras do território do continente.

Neste agosto de 2018, durante sete dias, Monchique voltou a ser palco das chamas. A serra voltou a perder a sua cor. Arderam eucaliptos, sobreiros, medronheiros, e colmeias, provocando um dano profundo no tecido económico e social do concelho, cujo real valor está ainda por apurar. Não se registaram vítimas mortais, facto que merece o devido destaque.

O incêndio, iniciado em Monchique, avançou em várias direções, atingindo os concelhos de Odemira, Portimão e Silves. Não tendo sido possível controlá-lo na sua fase inicial - principal vulnerabilidade do nosso sistema de defesa da floresta -, ganhou desmedida intensidade, devorando tudo o que apanhou pela frente.

Na freguesia de Alferce, a mais flagelada pelo incêndio, a perplexidade é grande. Muitos afirmam ter cumprido com a sua parte, executando em tempo recorde as orientações dadas pelo Governo quanto às faixas de gestão de combustível em redor das suas casas e propriedades. Mas de nada serviu. Afinal, um incêndio com estas características não se consegue travar com faixas burocraticamente definidas, sem atender às especificidades do território e variáveis que influenciam o comportamento.

Quanto às operações de socorro, muitos insurgem-se pela forma como o processo de evacuação das populações foi efetuado pelos militares da GNR, defendendo a necessidade de receberem formação específica. Houve pessoas que recorreram a subterfúgios para não serem evacuadas, acabando por ficar a defender os seus bens, depois de os militares da GNR abandonarem as povoações. Para justificar este comportamento, alegam não terem visto bombeiros para defenderem as casas. A verdade é que testemunhei algumas situações em que as casas estão rodeadas de cinzas, mas ficaram intactas.

Quanto ao combate, guardarei para outro texto essa análise e a fundamentação. Tal como na passada semana escreveu, neste espaço, o engenheiro florestal Marc Castellnou: "Uma situação de emergência nunca é boa para construir futuro. É preciso planificar, entender onde estamos e como podemos criar uma paisagem resiliente aos incêndios de amanhã".

Sim, ainda estamos na fase de emergência. Mas urge pensar já no futuro. E como estamos em Portugal, para que este desiderato seja exequível, exige-se uma receita inovadora com a qual todos se comprometam: prescindir de protagonismos políticos de circunstância; credibilizar a ação política decisória, convocando conhecimento; promover soluções intermunicipais; mobilizar recursos para potenciar valor; legitimar apenas as palavras que tenham ação associada.

Utopia, dirão alguns. Talvez. Mas recuso aceitar que estejamos condenados a ser reféns da incompetente governação do nosso território e dos seus erros e omissões, de que os incêndios florestais que ocorrem em Portugal são, apenas, uma das mais dramáticas consequências. Esta é mais uma oportunidade para pormos fim a este desastroso ciclo de irresponsabilidade.

*PRESIDENTE DO CENTRO DE ESTUDOS, E INTERVENÇÃO EM PROTEÇÃO CIVIL