Até invadem terraços para selfies nas casas coloridas da Costa Nova

Até invadem terraços para selfies nas casas coloridas da Costa Nova

Todos os dias, no verão, há uma espécie de peregrinação às casas das riscas da Costa Nova, em Ílhavo. Turistas, quer portugueses quer estrangeiros, passam o dia a posar junto às habitações coloridas. Ou até dentro delas, pois há mesmo quem salte vedações. Tudo para conseguir a fotografia perfeita

Manuel Mendes, 80 anos, está sentado num banco de jardim no terraço, na casa que dantes era de férias, mas que agora, na reforma, se tornou residência permanente. Parece alheio ao corrupio à volta. É que, a uns escassos dois metros, há estranhos a usar a fachada da sua casa - às riscas, verde, branca e pitoresca - como fundo de fotografias. Alheios também, aparentemente, à presença do proprietário. É assim, há alguns anos, na Calçada Arrais Ançã, na Costa Nova, Ílhavo. Principalmente no verão, todos os dias, centenas de turistas anseiam por uma fotografia junto às casinhas coloridas. E o fenómeno tem vindo a crescer. Com a privacidade muitas vezes invadida, aos moradores resta continuar a vida como se nada fosse. Como Manuel. "Sabe, desisti de me preocupar. As pessoas são muito dependentes dos telemóveis", atira, do banco do terraço.

Eça de Queirós escreveu, um dia, que a Costa Nova era "um dos pontos mais deliciosos do Globo". Não esperava, certamente, é que se tornasse um dos pontos mais apetecíveis das redes sociais. Tirar uma fotografia junto a uma das casinhas às riscas vale, invariavelmente, muitos "likes". Seja pela vivacidade das cores, seja porque parecem remeter-nos à infância e às casas de bonecas, aqui em tamanho real.

Num destes dias, Tiago Barros, de 41 anos, ia a entrar na casa de férias da família, que já era dos bisavós, quando um turista se mostrou incomodado por ver o seu momento fotográfico interrompido. "Sabe que isto é uma casa e não um cenário da Disney?", questionou-o Tiago. "Às vezes, ficam surpreendidos por verem que é uma casa com uma vida normal. Até nos pedem para espreitar o interior", conta, a rir, ao recordar também que recentemente teve uma noiva a pedir-lhe para ir à varanda posar para uma fotografia. Tiago deixou. "Habituámo-nos. Desde que as pessoas tenham respeito, não faz mal. O problema é quando entram no terraço, sem pedir. Agora, até temos sempre a cancela fechada. Mas há casas onde saltam a vedação e entram".

A casa da família Barros, vermelha e branca, é uma das mais requisitadas para as fotografias. É que tem ao lado uma verde e branca, seguida de uma azul e branca, perfazendo um trio contemplado, vezes sem conta, nos postais da região. É na azul - onde até se faz fila para tirar fotografias - que encontramos Vera Urbano, de 39 anos, natural de Braga, e Rosa Ramos, de 63, de Oliveirinha, Aveiro. Emigrantes em França, estão a posar para uma fotografia. De seguida, é certa a publicação da mesma nas redes sociais. Mas não é para obter "likes", garantem. O objetivo, esse, é outro: "mostrar aos amigos lá fora como é o nosso país". "Ainda há pouco, publiquei umas fotografias que tirei ali junto aos barcos, e as minhas amigas de França começaram logo a perguntar em que país é que eu estava. Respondi que estou no meu, Portugal", diz Vera.

A história repete-se, diariamente. Uma mãe e uma filha fingem entrar numa casa, como se lá morassem, enquanto o pai as fotografa. Um casal pousa o tripé, com o telemóvel, e vai dar um beijo junto das casas, enquanto o aparelho dispara. Manuel Mendes, entretanto, continua alheio a tudo, no banco do seu terraço, onde, quando ele não está, há turistas que se sentam sem pedir. "Não acho bem, mas tento levar com tranquilidade. Caso contrário, passaria os dias chateado", afirma, resignado. Afinal, o direito a sonhar está reservado a todos. E as casinhas da Costa Nova parecem tiradas de um mundo imaginário