Incêndios

Bombeiros e meteorologistas têm de falar a mesma língua

Bombeiros e meteorologistas têm de falar a mesma língua

Amanda Cunningham é uma norte-americana com formação em meteorologia e comportamento do fogo. Tem formação em Meteorologia, Matemática, Ciências da Terra e da Atmosfera na St. Cloud State University e trabalha como consultora para o Departamento dos Recursos Naturais do Minnesota e para a Eagle Fire Weather. Está em Portugal ao abrigo do Programa de Intercâmbio de Peritos promovido pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais - criada pelo Governo na sequência dos incêndios devastadores de 2017.

A iniciativa, patrocinada pela Fundação Luso-Americana de Desenvolvimento (FLAD), pretende acelerar a disseminação de conhecimento para melhorar as respostas em caso de fogo. Há dias, Amanda Cunningham esteve na Universidade de Aveiro, onde elogiou o conhecimento existente em Portugal. Mas realçou a necessidade de melhorar a troca de informação e compreensão mútua entre os vários agentes. Dia 14, pelas 15 horas, estará na sede da FLAD, na Rua Sacramento à Lapa, em Lisboa, para uma palestra aberta ao público.

Porque veio a Portugal?

Fui convidada como especialista e meteorologista de fogo para trazer a minha experiência e partilhar o meu conhecimento de forma a promover as relações dentro da comunidade de meteorologistas e quem combate os fogos em Portugal.

Com quem já manteve contactos?

Estou a realizar workshops ao longo de várias semanas, que incluem muitas entidades, desde o lado meteorológico, como o IPMA, as forças de proteção, da força aérea, marinha e outras entidades. A ideia é juntar pessoas de diferentes quadrantes para partilhar conhecimento em prol do objetivo comum de melhorar a comunicação.

O que é uma meteorologista do fogo?

Sou meteorologista de formação e tenho, também, experiência e treino em comportamento do fogo.

Descreve-se como uma tradutora.

Gosto de descrever o meu papel como uma tradutora ou uma ponte entre o conhecimento dos meteorologistas e a Proteção Civil. Refiro-me concretamente ao conhecimento de como a meteorologia tem impacto no fogo e ao tipo de informação específica que os agentes de Proteção Civil precisam, para saber que comportamento esperar do fogo e combatê-lo.

Que realidade encontrou em Portugal?

Eu não sabia o que esperar, por isso li o mais possível. O desafio de comunicar é global. Encontrei os mesmos desafios que tive no meu trabalho normal, na construção de pontes.

Considera que há lacunas a corrigir no que diz respeito à previsão meteorológica e a sua ligação ao combate a fogos?

Do lado do conhecimento há excelente informação. O desafio é mais o de partilhar e o da compreensão mútua, para que se possa aproveitar esse conhecimento. Vocês têm excelente previsão do tempo e excelentes forças de combate ao fogo, é uma questão de pôr as duas peças juntas, para que todos possam obter o melhor resultado possível. Falar a mesma língua é a principal barreira, por isso o nosso objetivo é partilhar e aprendermos a língua uns dos outros. É isso que pretendemos fazer nestes workshops de formação, para que possamos partilhar esse excelente conhecimento que já existe.

Temos conhecimento mas não o conseguimos "traduzir"?

Precisamos de continuar a trabalhar na comunicação e na compreensão uns dos outros.

O que é preciso mudar ou melhorar?

Estamos a promover a construção contínua destas relações e aprendendo uns com os outros. Temos muitos especialistas e conhecimento e precisamos de aprender uns com os outros para avançarmos. Já estamos a fazer isso com estas agências integradas e formação. Estes workshops reforçam estas ligações e fazem com que avancemos no futuro.

Estudou o caso do incêndio de Pedrógão?

Sim.

O que aconteceu?

Não estudei nesse aspeto específico. Estou aqui para fomentar a comunicação entre os diferentes especialistas e construir pontes, não para analisar cada caso.

Mas considera que deveria ser um caso de estudo pela sua especificidade?

Há muito que já foi feito pelos profissionais daqui (Portugal).

Qual é a principal mensagem a extrair dos seus workshops?

Há uma grande quantidade de talento, conhecimento e experiência à nossa volta e estamos a reunir as pessoas para aprendermos uns com os outros e comunicar melhor o que cada um sabe.

Como podemos fazer para melhorar essa comunicação?

Este é só o início. É preciso manter estes workshops e reuniões e construir relações para facilitar a comunicação.

Na sua opinião, serão necessários mais meteorologistas de fogo ou uma presença mais ativa de meteorologistas durante os incêndios?

Temos de construir as pontes de comunicação entre meteorologistas e quem combate os fogos e isso pode ser feito de muitas maneiras. Já temos pessoas que têm esse conhecimento e precisamos de continuar a aprender uns com os outros.

Topografia, combustível e tempo afetam fogo

A progressão de um fogo florestal é influenciada pelo tempo, combustível que arde e topografia do terreno, as três faces do que Amanda Cunningham - a especialista norte-americana que está em Portugal para o programa de intercâmbio de peritos da AGIF - chama de "triângulo do comportamento do fogo". Há ingredientes que ajudam a antecipar o que poderá acontecer.

Que tipo de impacto pode ter a meteorologia no comportamento do fogo?

O tempo tem muito impacto no comportamento do fogo, mas não é a história toda. Há muitos fatores que entram na questão do fogo e do seu comportamento. Mas o do tempo é um que precisa de ser entendido. A comunicação de qual é o impacto do tempo pode ser sempre mais bem compreendida.

O que é o "triângulo do comportamento do fogo"?

Quando falamos de comportamento do fogo referimo-nos às características do fogo em termos de perceber para onde se está a dirigir. Os três aspetos principais que entram na equação do comportamento do fogo são as condições do tempo, o combustível que está a arder e a topografia do terreno.

Em Portugal, olha-se mais para a topografia e combustível, mas não o suficiente para o tempo?

Não. A topografia sabemos que não está sempre a mudar. Os dois lados mais difíceis do triângulo são o tempo e o combustível e em Portugal há excelentes especialistas nos dois lados com muito conhecimento. Estamos aqui para promover o encontro e a partilha do conhecimento de cada um, de forma compreensível e efetiva.

Quais são os ingredientes do tempo aos quais temos de prestar atenção?

Quando falamos de grandes fogos florestais, os principais impactos do tempo advêm do vento, humidade e temperatura.

Disse na palestra que havia muitos fenómenos que podiam ser previstos se olharmos para estes ingredientes, que não são todos fenómenos que surgem de forma inesperada.

Exato. Em Portugal existe grande conhecimento na previsão do tempo e é uma questão de ligarmos o conhecimento do tempo e essa previsão na forma como pode ou não influenciar um fogo que está a decorrer.

Quais são os fenómenos do tempo mais perigosos que podem ocorrer e ter impacto num fogo?

Para ter um evento catastrófico há muitas coisas que têm de acontecer, não é só uma coisa. Às vezes, o tempo é uma dessas peças e pode resultar seja de tempestades, mudanças de direção do vento e outros fenómenos. Cada fogo é diferente e tem os seus próprios desafios, alguns dependem mais do tempo do que outros e não podemos simplesmente apontar um ou outro fator.

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