Campanhã, a nova cara do Porto

Campanhã, a nova cara do Porto

Apesar de constituir um quinto da cidade em termos de território e de ser uma das freguesias mais populosas do Porto, Campanhã tem cerca de 32 mil habitantes, está afastada e sofre do estigma de grande parte dos moradores residirem em bairros camarários ou em ilhas. O interesse dos investidores parece ter-se virado para o oriente da cidade, ainda com muitas potencialidades para explorar. Gente nova e com novas ideias tem procurado este território, com projetos criativos inovadores.

Para quem não reside na freguesia, Campanhã é sinónimo de uma estação de comboios, inaugurada em 1875, numa altura em que este território mais oriental do Porto não era mais do que terrenos agrícolas, que abasteciam os mercados da cidade, quintas e palacetes senhoriais, de gente abastada e que negociava em vinho do Porto. Hoje o cenário é bem diferente. "Ao longo das últimas décadas, não só as últimas duas em que o Porto foi presidido por Rui Rio e que foram muito graves para a freguesia e para a cidade, a verdade é que Campanhã esteve paralisada", explica o presidente da junta de freguesia, Ernesto Santos.

Enquanto freguesias periféricas ao centro da cidade, como as da Foz do Douro, Nevogilde, Ramalde, Paranhos e até Aldoar mostravam bons índices de desenvolvimento, Campanhã era o local que não despertava interesse das políticas do poder local nem dos investidores privados. A indústria forte de finais do século XIX ficou reduzida, após o 25 de Abril de 1974, a escombros (muitas fábricas em ruínas pintam ainda a paisagem, nomeadamente na zona do Freixo), e os bairros camarários, 14 dos 42 existentes no Porto, eram sinónimo de pobreza, marginalidade e tráfico de droga. Um estigma que permaneceu até hoje e que prejudica a freguesia.

"Toda a gente tem essa ideia. Apesar de muitas dessas coisas serem verdade, o crime e a insegurança existem em outros locais da cidade e do país e, em Campanhã, há também coisas boas e muitas potencialidades de desenvolvimento", acrescenta Ernesto Santos, que recorda o Plano de Pormenor das Antas que implicava projetos no sentido da criação de uma nova cidade mas que, "a partir de 2001, ficou parado com a fuga dos investidores devido às medidas restritivas criadas pelo Executivo de Rui Rio".

"Por isso é que, agora e pela primeira vez, Campanhã vai ter finalmente projetos capazes para a sua dinamização. Com a chegada de Rui Moreira, vemos vontade política", diz o presidente da junta de freguesia, a única socialista da cidade do Porto. Ernesto refere-se ao projeto para o antigo matadouro da Corujeira, ao Terminal Intermodal e à nova ponte sobre o Douro, que vai ligar, à cota baixa, a freguesia a Oliveira do Douro, na margem esquerda (Gaia).

Este entusiasmo é repartido com o presidente da Câmara do Porto. Rui Moreira que já afirmou que o projeto desenhado pelo arquiteto japonês Kengo Kuma para o matadouro da Corujeira terá um impacto único na freguesia. "Tal como a Casa da Música, na zona Ocidental da cidade, esta será a obra icónica da zona oriental e não é por acaso que interessa aos investidores privados", acrescentou o autarca mal foi anunciado o vencedor do concurso para a reconversão do antigo matadouro.

Kengo Kuma, em parceria com o gabinete de arquitetos OODA, prevê unir o velho edifício e o novo espaço a construir com uma cobertura que anulará o declive onde ambos se encontram quase por baixo da Via de Cintura Interna (VCI). A solução é uma passagem pedonal e ajardinada, como que um jardim suspenso sobre a via ligando o complexo à estação de metro do Estádio do Dragão.

"O edifício está muito degradado, mas tem enormes potencialidades. É um espaço único e imponente a começar pela fachada, uma construção tipicamente ao estilo alemão", afirmou ao JN Jorge Garcia Pereira que, juntamente com oito elementos do gabinete de arquitetura Garcia & Albuquerque, foi responsável pela proposta que serviu de base ao concurso. O matadouro foi inaugurado em 1910 e o desenho teve por base o seu congénere alemão de Offenbach (1908) que encerrou em 1990 e convertido em 1995 num complexo residencial, centro cultural e de congressos e hotel.

No Porto, a reconversão custará 40 milhões de euros e será constituída por auditórios, galerias e escritórios, tudo a ocupar os 29 mil metros quadrados do antigo matadouro da Corujeira. Ali ficará instalada a Área de Empresas Criativas e Tecnológicas, o Museu da Indústria, uma valência dedicada à arte e comunidade e que será coordenada por agentes multidisciplinares que desenvolvam práticas em áreas sociais e artísticas, em articulação com o tecido social.

O Terminal Intermodal de Campanhã vai nascer junto à estação ferroviária e representa um investimento da Câmara do Porto na ordem dos 6,36 milhões de euros. A infraestrutura completará a intermodalidade da estação, que já possui a vertente ferroviária e de metro, ficando completa com o terminal destinado a autocarros.

Nesse sentido, esta grande plataforma vai abranger os autocarros da STCP e dos operadores privados, os comboios urbanos e de longo curso, o metro e táxis, aproveitando a localização que possui através das acessibilidades rodoviárias como a VCI e das autoestradas circundantes (A1, A3, A4 e A43).

O terminal vai trazer diariamente milhares de pessoas "e terá de ter outras estruturas, sobretudo hoteleiras, para as receber". Ernesto Santos não tem dúvidas de que Campanhã vai ganhar "outra centralidade" e, acrescenta, "o importante é atrair massa crítica", mas também investimento privado, processo que já começou com a construção de um hospital do Grupo Trofa Saúde, mesmo junto ao local onde nascerá o interface, e da instalação de uma grande superfície comercial no espaço da antiga Fábrica do Cobre, na Circunvalação.

O autarca de Campanhã fala também na requalificação dos bairros sociais, como o da Maceda e o do Cerco. É preciso que o lugar de Azevedo, decepado da restante freguesia pela VCI e pela A44, seja incorporado. "Ali ainda há ruas em terra batida". Será importante a linha de metro para Gondomar e que atravessará toda a freguesia para fazer essa união. É urgente uma maior atenção aos problemas sociais que são muitos, apesar do esforço realizado pelas instituições de solidariedade e associações locais. Campanhã é a freguesia onde o espírito associativo é mais forte, existindo associações de todo o tipo, desde a columbofilia, à pesca, passando pelas desportivas, culturais, dos fadistas do Norte e dos ciganos do Porto. Para Ernesto Santos, esta é uma oportunidade única. Por isso não hesita: "Campanhã está na moda".

"Este era um sítio improvável para abrir uma galeria". Manuela Matos Monteiro e João Lafuente são um casal que desde sempre se dedicou à fotografia e que está apaixonado por Campanhã. Criaram o Mira Fórum, um centro multidisciplinar e de diversidade na oferta cultural, projeto que depois cresceu, existindo neste momento outros dois espaços: o Espaço Mira, mais direcionado para a fotografia, e o Mira Artes Performativas. Tudo isto fica na Rua de Miraflor, "uma rua invisível", como eles lhe chamam, mas não ao ponto de não dar nas vistas.

Aliás, Campanhã começa a atrair nos projetos, de gente de fora da freguesia. O Mira é talvez a aposta que mais se destaca por ter sido dos primeiros a instalar-se "na zona mais deprimida do Porto". Manuela e João explicam que "o projeto de vida" de ambos era ter uma galeria dedicada à fotografia. "Mas queríamos um lugar que não fosse Miguel Bombarda ou o centro do Porto, porque não somos galeristas", refere Manuela Matos Monteiro.

"O nosso interesse é a fotografia, mas também os lugares e as pessoas". Por isso, a escolha recaiu naquela rua estreita que, a par dos 11 antigos armazéns (de cereais e batatas), tem ainda oito "ilhas" ativas e repletas de moradores. A aproximação entre o Mira e os moradores foi quase imediata, "sobretudo quando o presidente Marcelo Rebelo de Sousa esteve aqui para ver a exposição de fotografia de Alfredo Cunha e Rui Ochoa", conta Manuela.

Enquanto o casal fala para o JN, na rua passa Judite que mora na ilha. "Olá Judite, bem disposta?", pergunta Manuela. "Sim e a menina?", responde a residente que de imediato confidencia que Manuela e João "foi do melhor que podia acontecer na rua". Judite diz que também é artista, faz arranjos de flores. Aprendeu sozinha porque não tem instrução. "Em pequena éramos muitos irmãos e o meu pai para poder receber dez contos por mês deu-me como louca e internou-me no hospital Conde de Ferreira", conta a rir. Hoje tem 56 anos, quatro filhos e o 11.º neto vem a caminho.

Judite é o espelho da freguesia. "Esta zona não foi esquecida, foi desprezada, o que é bem pior", considera Manuela, que no seu espaço cultural tenta sempre criar atividades que envolvam a população local. O mesmo acontece com a Associação Recreativa Malmequeres de Noeda (esteve quase extinta e foi reativada por um jovem casal), com o grupo de Teatro de Ferro, que surgiu em 1999, ou o CACE Cultural, um centro de apoio à criação de empresas na área cultural e artística, com áreas para exposições e para formação, apara além de outras instituições e movimentos associativos que funcionam nos bairros sociais. O novo empreendedorismo estende-se também a outras áreas, como a restauração, a hotelaria, galerias de arte e até promotores na área do turismo.

"Melhorar e complementar os ambientes, em vez de dominá-los". Este é o lema de Kengo Kuma, o arquiteto japonês a quem cabe requalificar o antigo matadouro da Corujeira. "Os meus edifícios são sempre parte do lugar, parte da localização. Quero combinar edifícios no meio ambiente o melhor que puder. Harmonia é sempre o objetivo da minha prática", afirmou numa entrevista, sendo também estas as linhas mestras que vai seguir no projeto destinado a Campanhã. Kengo Kuma nasceu a 8 de agosto de 1954 em Yokohama, no Japão. Formou-se em Arquitetura na Universidade de Tóquio, em 1979, e, mais tarde, mudou-se para os Estados Unidos, onde continuou os seus estudos na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. O seu trabalho distingue-se pelo aproveitamento dos recursos naturais, sendo a madeira um elemento quase sempre presente nas suas obras, sejam elas um templo religioso ou uma casa de habitação comum, mas também outros materiais, como o bambu e o barro, a substituir o aço. No seu trabalho destaca-se os projetos do Estádio Olímpico de Tóquio para o Jogos de 2020, o Museu Nezu (Tóquio), o Centro Cultural Japan House (São Paulo), a Bamboo Wall House (Pequim), o Museu Victoria & Albert (Dundee, Escócia) e a loja da Starbucks, em Fukuoka.

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