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Cidades estão a alterar comportamento dos animais

Cidades estão a alterar comportamento dos animais

Maior abundância de alimento, ausência de predadores, microclimas com temperaturas mais amenas são alguns dos fatores que levam aves, mamíferos e insetos a viverem mais perto dos humanos.

Com a mudança em massa das populações humanas para as cidades e a consequente rápida expansão das áreas urbanizadas, muitas espécies de animais ficam com os seus habitats ameaçados. Há os que não se adaptam. Mas também os que conseguem tirar partido das novas oportunidades e mudam os comportamentos originais. Em Portugal, fala-se de adaptação, por se achar que a evolução das espécies é coisa para demorar muitos milhares de anos, ou até milhões. No entanto, a nível mundial, há casos investigados que sugerem o surgimento de novas espécies, na sequência da vida nas cidades ou, então, das barreiras físicas criadas por estas.

Não vamos discutir nestas linhas se os animais são inteligentes, espertos, se unicamente respondem a estímulos ou se se guiam pelo instinto. Mas não há dúvidas de que alguns deles são mesmo uns "chicos-espertos". Vão do campo para as cidades, tiram partido das oportunidades que se lhes apresentam e ainda vivem melhor. Na verdade, são uns oportunistas. Significará isto algum tipo de evolução?

O docente e investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) João Cabral crê que não. "Colocar processos de cariz macroevolutivo, que no limite podem dar origem à especiação, numa escala de décadas ou séculos, parece-me exagerado". Na verdade, a evolução das espécies nunca pode ser medida sem se falar em milhares de anos, se não for mesmo em milhões. Por isso, João Cabral prefere falar em "adaptação".

Também sobre "adaptação" escreve a revista científica "Science", que publicou recentemente o artigo "Evolution of life in urban environments" ("Evolução da vida em ambientes urbanos"), em que os investigadores Marc T. J. Johnson, da Universidade de Toronto Mississauga, Canadá, e Jason Munshi-South, da Universidade Fordham, EUA, analisam o conjunto de pressões que os ambientes urbanos exercem e as formas pelas quais as espécies podem, ou não, adaptar-se.

Os investigadores sublinham que "a urbanização resulta em mudanças ambientais dramáticas, incluindo temperaturas aumentadas, cobertura superficial mais impermeável, hidrologia alterada e poluição elevada". Por outro lado, concluíram que "as áreas urbanas hospedaram mais espécies não nativas e reduziram a abundância e a diversidade de muitas espécies nativas".

Segundo Johnson e Munshi-South, pesquisas sobre a evolução urbana mostram que "as cidades aumentam a força da deriva genética aleatória e restringem o fluxo de genes". Também sugerem que nas espécies que ficam retidas, ou nas forasteiras que chegam, existe uma "perda de diversidade genética" e uma "maior diferenciação entre as populações". Mas ressalvam que "a influência da urbanização em mutação e evolução adaptativa é menos clara". Isto apesar de um pequeno número de estudos sugerir que a poluição industrial pode elevar as taxas de mutação, sem, contudo, precisar a dimensão desse efeito.

Em Portugal, também há animais do campo que alteraram comportamentos à medida que os seus habitats foram sendo engolidos pela expansão das cidades. Nem todos o conseguiram, mas há vários especialistas em tirar partido das novidades: gaivotas, pardais, pombos, morcegos, ratos e alguns insetos.

Abordaremos o morcego nas próximas páginas. Para já, vale a pena colocar o foco nas gaivotas. Sempre foram associadas a cidades do litoral, encontram-se normalmente em zonas portuárias com atividade piscatória, mas cada vez mais também em lixeiras. Paradoxalmente, a maior concentração está onde a atividade humana é mais intensa.

"São espécies com uma capacidade de adaptação enorme. São generalistas, porque falhando um recurso rapidamente conseguem explorar outro alternativo e as cidades têm uma oferta enorme", descreve o investigador da UTAD. "Se o recurso é fácil de adquirir e não se é esquisito, que tanto faz ir ao lixo, como aos restos de peixe, claramente, em termos de custo/benefício, é mais vantajoso ficar no conforto da cidade".

De qualquer modo, as gaivotas já trazem consigo o "cleptoparasitismo", que consiste em atacar outras espécies para lhes roubar o alimento. Portanto, se outro já apanhou algo que é difícil há sempre a possibilidade de o assaltar. Os pombos foram introduzidos nas cidades quase por uma questão de estética. Mas como, à semelhança das gaivotas, têm uma matriz generalista, adaptam-se muito bem ao espaço urbano. Aqui encontram refúgio, zonas para criar, alimento com fartura, já que comem quase tudo, e não têm predadores. Isto para além de as temperaturas serem um pouco mais altas do que no meio natural, ao que ajuda também a existência de fontes de calor artificiais.

O pardal doméstico é outro exemplo interessante. João Cabral costuma perguntar nas suas aulas se alguém de um meio urbano já viu um ninho de pardal numa árvore. "Quase ninguém viu, porque esses só existem em zonas rurais".

Normalmente estes pássaros preferem usar as estruturas humanas, porque tem menos custos. Se debaixo de telhas ou em orifícios das construções já existem as condições ideais, basta colocar umas palhinhas para acomodar os ovos e já está. Para quê ter mais trabalho? Os pardais domésticos são de tal maneira oportunistas que, há milhares de anos, encontram nas povoações um ambiente extremamente favorável, ao ponto de quase só já serem vistos em zonas urbanizadas. São granívoros, mas também comem insetos e tudo o que houver disponível.

Os ratinhos e as ratazanas são espécies que acompanham as populações humanas desde sempre, apesar de terem uma conotação negativa, pois no período medieval foram vetores de doenças que dizimaram comunidades inteiras, para além de estarem associados a zonas pouco limpas. As baratas, os mosquitos e as moscas domésticas também se concentram em zonas humanizadas, porque tiram partido do desperdício. Porém, estão igualmente conotados com aspetos negativos.

Os animais não são os únicos protagonistas nos processos de adaptação. Também há plantas exóticas e invasoras, que tiram partido das cidades e das estruturas humanas. No litoral português há um conjunto de plantas que inicialmente eram ornamentais e depois se tornaram pragas enormes. "A erva das pampas é uma espécie que ocupou completamente os taludes das estradas. Em todas as zonas mais ou menos degradadas não dá hipótese", salienta João Cabral, que vê aqui uma "resposta adaptativa a uma condição em que não há competidores, em que se dá bem e domina completamente".

A acácia é outro exemplo de uma espécie que se instala em zonas vulneráveis e então domina. Tem um padrão tipicamente oportunista, que tira partido dos ambientes humanizados nas zonas periurbanas.

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