Grande Tema

Cidades pequenas não conseguem ser inteligentes

Cidades pequenas não conseguem ser inteligentes

Concelhos menos populosos querem seguir futuro assente na tecnologia, mas vão demorar mais tempo do que as urbes. Maiores dificuldades são atrair pessoas, conhecimento e investimento. Mas há resistentes.

Atualmente, metade da população mundial vive em áreas urbanas, uma proporção que se espera que venha a aumentar para 66%, em 2050. Nesse ano, as projeções das Nações Unidas apontam para que os centros urbanizados tenham mais 2,5 mil milhões de pessoas, o que faz com que se comecem a impor soluções sustentáveis e novos modelos de desenvolvimento urbano, que combatam problemas de mobilidade, segurança, desigualdades sociais ou até ambientais.

É neste contexto que surgem as smart cities (cidades inteligentes), que assentam na utilização de tecnologias de informação e comunicação para promover a qualidade de vida dos cidadãos e o desenvolvimento económico. Em Portugal, se o conceito já começa a fazer parte da agenda dos governantes - e a adoção de medidas "inteligentes", sobretudo na mobilidade, já proliferam nos grandes municípios -, há concelhos de menor dimensão que vivem numa luta pelo investimento privado e público, para conseguirem modernizar-se, atrair turistas e fixar população através da tecnologia e conhecimento.

Em Braga, no Fórum Internacional das Comunidades Inteligentes e Sustentáveis, que decorreu pelo quarto ano consecutivo, cruzaram-se realidades distintas, com os autarcas do Alto Minho e da região do Douro a apresentarem um conjunto de potencialidades dos seus territórios, ao mesmo tempo que desfiavam os constrangimentos à aplicação de medidas "inteligentes", à mesma velocidade que as urbes. "Infelizmente, custa-nos dez vezes mais chegar a comunidades inteligentes. Aquilo que é a tecnologia e nós damos por adquirido, principalmente quem vive em densidades populacionais maiores, nos nossos casos temos enormes dificuldades. Se eu sair um dia de manhã e regressar ao final do dia, passo por inúmeros sítios onde há dificuldade de ter rede de telemóvel. Temos obstáculos que noutros locais nem se colocam", atesta o autarca de Tabuaço, um município com cerca de seis mil habitantes.

Melgaço e até Caminha contam com mais gente, mas o problema de telecomunicações, desígnio fundamental para uma cidade inteligente, também é uma realidade em algumas povoações mais rurais. "Sem comunicações digitais, não temos condições de desenvolvimento do território. É preciso um esforço grande e que as operadoras se juntem, encontrem soluções que conjugadas são mais baratas", defende o autarca de Melgaço, Manoel Baptista.

Em Caminha, Miguel Alves adianta que os 150 habitantes de serra de Arga sem rede terão o problema resolvido dentro de um mês. "Ao mesmo tempo que tentamos ir para o topo, ainda estamos a resolver processos de base", reconhece.

Carlos Carvalho apela aos privados e ao Governo para que olhem para municípios menos povoados, "na perspetiva de investirem lá o que foi investido noutros lados". Senão, concretiza, "dificilmente vamos aproximar-nos de outras realidades". Neste sentido, Manoel Batista recorda uma proposta, inviável por falta de financiamento. "Há dois anos, uma empresa que queria instalar um conceito de smart city, de forma alargada, no município, exigiu um investimento de seis milhões de euros. Eu acredito que para um município como Braga, seis milhões de euros num orçamento não seja tão pesado e possa ser investido em dois anos para uma grande intervenção. Em Melgaço, estamos a falar de mais de um terço do orçamento, e isso não é possível sem que haja investimento público".

Ainda assim, os constrangimentos não têm sido razão para estes autarcas não começarem a trilhar um caminho de futuro. Na mobilidade, turismo e na gestão de serviços camarários já se notam as primeiras mudanças de paradigma. Se Caminha tem 150 pessoas sem rede wi-fi ou de telemóvel, por outro lado, está a concluir um investimento em rede de fibra ótica que chegará a 75% das casas do concelho. Em Arcos de Valdevez, esta tecnologia já está instalada nos parques empresariais.

Monção, por exemplo, vai apostar na economia circular e está focado na eficiência energética dos edifícios públicos, enquanto Vila Nova de Cerveira olha para a mobilidade sustentável, com a extensão da ecovia. O mesmo em Caminha, onde Miguel Alves espera, também, incluir um projeto de "bike sharing" (partilha de bicicletas). Por outro lado, tem o desígnio da educação de qualidade. "Temos de apostar nas pessoas inteligentes que vão tornar o território inteligente", defende".

O que é uma smart city?
O conceito de smart city (cidade inteligente) diz respeito às cidades onde são implementadas políticas urbanas que melhorem a qualidade de vida, recorrendo às tecnologias de informação e comunicação.

Em que áreas intervém?
A competitividade económica, mobilidade, sustentabilidade ambiental, qualidade de vida dos cidadãos e uma governança inteligente são pilares de uma smart city.

Que país é líder?
A China é, atualmente, o país com maior número de projetos-piloto de smart cities. São cerca de 500, cobrindo grandes e pequenas cidades, de acordo com um relatório da consultora Delloite.

Qual a mais smart?
O Instituto de Estudos Superiores da Empresa, Espanha, que avalia o nível de desenvolvimento de 181 cidades, colocou Nova Iorque como a mais inteligente do Mundo.

Andar de transportes públicos sem bilhete ou cartão na mão, podendo, em vez disso, pegar no telemóvel para iniciar uma viagem, sem preocupações acrescidas, não é uma realidade muito distante para os utilizadores do Andante, no Porto. Os Transportes Intermodais do Porto (TIP) criaram um novo sistema de bilhética - Anda -, baseada num aplicação móvel, que evita preocupações com o tipo de viagens a comprar, no início do mês ou a cada deslocação, porque o sistema atribui a cada passageiro o tarifário mais favorável, enviando-lhe a fatura para casa, no final do mês.

O Anda estará disponível para smartphone com sistema Android e poderá ser usado no Metro do Porto, nos autocarros da Sociedade de Transportes Coletivos do Porto, na CP e em operadores privados. No Fórum Internacional das Comunidades Inteligentes e Sustentáveis, em Braga, o administrador dos TIP, João Marrana, não excluiu a hipótese que este modelo seja, num futuro próximo, alargado a outras cidades e, neste sentido, defendeu a necessidade de uma solução para a mobilidade inspirada no "roaming" das telecomunicações.

O modelo proposto assenta no projeto MaaS, uma plataforma que se espera que agregue um conjunto de serviços de mobilidade, no Porto, região do Cávado, Aveiro e Viseu. "As pessoas que viajam frequentemente de Braga para o Porto, ou vice-versa, devem aceder aos vários meios de transporte da cidade para onde se deslocam, com o mesmo título de transporte que usam para se deslocarem na cidade onde residem", exemplificou Marrana. Mais a Sul, em Cascais, o Município também deu um passo à frente em questão de transportes públicos, com o lançamento da "Mobi Cascais", em 2016, um projeto de mobilidade combinada entre autocarros, comboios e bicicletas, que permitiu "melhores serviços e a um custo mais baixo" do que aqueles que eram praticados pela rede de transportes da Área Metropolitana de Lisboa, defendeu Rui Rei, administrador da empresa municipal Cascais Próxima, que gere o projeto.

ver mais vídeos