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Explosão de escritórios no Porto e Lisboa

Explosão de escritórios no Porto e Lisboa

Desde o início do ano que as taxas de ocupação de escritórios no Porto e Lisboa dispararam para médias inimagináveis.

Foi nos centros das duas maiores cidades portuguesas, antes entregues a prolongada degradação do edificado, que o boom registou sinais mais impressionantes, impulsionado pelo crescimento turístico, pela onda de recuperação do património e pela tentativa de atrair (ou voltar a atrair) quem antes fugira para outros pontos, nomeadamente para municípios vizinhos, e parecia não dar sinais de pretender regressar à casa-mãe.

Os dados estão bem patentes num estudo elaborado pela consultora Cushman & Wakefield, a que o "Jornal de Notícias" teve acesso, o qual é claro ao apontar que em Lisboa "a procura de espaços entre janeiro e julho cresceu 31% face ao período homólogo do ano passado, com cerca de 114 mil metros quadrados transacionados".

Para se ter uma ideia do nível de crescimento na capital, basta referir que os valores referentes à aquisição ou aluguer de escritórios registados em 2018 cresceram 73% acima da média verificada na última década.

A Taxify chegou a Portugal em dezembro de 2017, em pleno início do processo de multiplicação do mercado de escritórios. Os responsáveis por esta empresa de transporte privado fundada na Estónia não tiveram qualquer dúvida de qual seria o destino da sede por cá: Lisboa. Instalaram-se temporariamente no Parque das Nações e dois meses depois mudaram-se para a mais central zona do Saldanha.

"Nunca pensámos noutra possibilidade. Por uma questão de mobilidade, de transportes, de estruturas na zona envolvente ao escritório", justifica Maia Pedro, especialista em operações da Taxify, que partilha o espaço com sete colegas.

A ideia, contudo, é mudar em breve para uma zona ainda mais cravada no coração de Lisboa: a Avenida da Liberdade. O problema tem sido a lista de espera até vagar uma sala que corresponda às expectativas. Consequência da enorme procura verificada nos últimos meses, que cada vez mais dificulta soluções rápidas para quem pretende encontrar um novo espaço de trabalho em Lisboa com brevidade.

No Porto, o cenário não é muito diferente. Embora os dados da Cushman & Wakefield apenas digam respeito aos primeiros três meses de 2018, a conclusão é que de janeiro a março foram contabilizados 30 mil metros quadrados de ocupação de escritórios.

Os valores confirmam o crescimento sustentado visível desde 2015, "com um volume médio de procura entre os 30 e os 40 mil metros quadrados". A perspetiva é que no final do ano se possa afirmar com clareza uma "tendência de aumento muito considerável" na aquisição ou aluguer de escritórios. A confirmar-se, será o melhor do ano de sempre do Porto no que à comercialização de escritórios diz respeito.

Um escritório em plena Baixa do Porto era ideia antiga do advogado Ricardo Salazar. Por isso, assentar arraiais profissionais na Rua de Santa Catarina foi hipótese que jamais poderia recusar.

"É uma zona de escritórios por excelência, um sítio perfeitamente central, de muito fácil acesso seja de metro, seja a pé. Para um cliente, por exemplo, é muito fácil chegar até nós", descreve Ricardo Salazar, que partilha o espaço com três colegas de ofício: Cátia Almeida, Luís Machado e Nuno Rodrigues. Na Rua de Santa Catarina já lá vão 18 anos, Ricardo Salazar foi testemunha privilegiada dos altos e baixos vividos na cidade. Quando as épocas foram de depressão, o vazio apoderou-se do centro da cidade. Em épocas mais favoráveis, como a atual, somam-se os motivos que dão vida ao Porto. É então que a procura se intensifica e encontrar espaço vago para trabalhar por conta própria é tarefa complicada, além de que as rendas sobem consideravelmente.

"Para ter uma ideia, já chegámos a ocupar um piso quase inteiro e agora apenas ocupamos uma parte. Há quem tenha mudado escritório para outras zonas da cidade mais acessíveis em termos de valores", nota Ricardo Salazar.

A zona da Boavista é a que concentra mais possibilidade de oferta, 26%, seguindo-se a Baixa, com 15%, num total de 200 edifícios disponíveis que reúnem um total de 800 mil metros quadrados aptos a receberem escritórios. Um dos dados mais relevantes do estudo aponta, porém, para a "desadequação da qualidade dos espaços face aos requisitos dos novos ocupantes que hoje lideram a procura". A Cushman & Wakefield é clara ao sublinhar que "a procura latente no Porto é muito elevada e tem vindo a ser limitada pela ausência de espaços de qualidade". O que se explica pelo facto de os escritórios procurados na cidade estarem integrados em edifícios entretanto recuperados, que antes apresentavam sinais de degradação e abandono.

No entanto, esta pecha está aos poucos a ser combatida com "um conjunto de novos projetos que visam colmatar a escassez de oferta de qualidade".

Entre eles contam-se o Boavista Office Center, que vai nascer na zona do Foco, ou o Porto Office Park, a ser erguido nas antigas instalações de recolha da STCP no perímetro que abrange a Avenida de Sidónio Pais e as ruas de Pedro Hispano, Tenente Valadim e João Araújo Correia, cuja inauguração está prevista para 2019.

Destaque ainda para a Área Metropolitana, onde os concelhos da Maia, Matosinhos e Vila Nova de Gaia possuem capacidade de mercado próxima dos níveis do Porto, respetivamente com 16%, 15% e 14% de volume disponível.

Os números revelados pela Cushman & Wakefield vão de encontro aos de um outro estudo elaborado pela também consultora Savills. O relatório aponta que de janeiro a agosto a área de escritórios em Lisboa subiu 41% em relação ao período homólogo de 2017. Também aqui as conclusões são comuns: é no centro da capital que mais se tem verificado um aumento anormal da taxa de ocupação, com o crescimento a registar números recorde.

"A maior disponibilidade financeira das empresas nacionais está a permitir que as mesmas realizem um upgrade das suas instalações, algo que se encontrava em standby nos anos de crise", descreve Hugo Mendes, analista sénior da Savills.

A área de escritórios contratada em Lisboa situou-se nos 127 988 metros quadrados, valor 41% superior ao registado em igual período do ano passado (90 709 metros quadrados), dizem as conclusões da Savills.

Um dos resultados visíveis que a bolha de crescimento proporcionou diz respeito à abrangência e variedade dos espaços disponíveis para compra ou aluguer. Desde salas mais reduzidas que servem, por exemplo, pequenos escritórios de advogados ou de engenharia, a grandes gabinetes de áreas amplas, geralmente adquiridos por empresas multinacionais para instalarem a respetiva representação em Portugal, realidade cada vez mais recorrente e que pode vir a ser a grande fonte de salvação do mercado de escritórios em caso de surgimento de novas crise profunda que arraste o setor imobiliário para cenário negro (ler entrevista a Marta Costa).

O coworking, conceito que privilegia a utilização partilhada de escritórios, é outro dos conceitos que mais têm crescido. Na prática, uma sala com área considerável é gerida por diversos ocupantes, que partilham, além do espaço, eletricidade, Internet e outros bens necessários ao bom funcionamento geral através de diferentes meios de utilização e de empresas

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