Centro Urbano

Há um mar de relíquias que inunda as ruas de Aveiro

Há um mar de relíquias que inunda as ruas de Aveiro

A Feira das Velharias de Aveiro tem crescido ao longo dos últimos anos e estende-se, agora, por um grande número de ruas e de pracetas do centro urbano. No quarto domingo de cada mês, desde manhã cedo até ao anoitecer, são artigos com dezenas de anos que fazem pulsar uma vida nova na cidade.

Um escudo pode valer 3500 euros e uma arca velha da Coca-Cola, importada, 700. Discos de música e livros compram-se por um euro. Carrinhos de brincar usados são trocados, a custo zero, por outros igualmente antigos e com uso, mas que serão novidade para quem os receber. É assim, no quarto domingo de cada mês, na Feira das Velharias, em Aveiro. As ruas do bairro da Beira-Mar são inundadas por relíquias com dezenas de anos. Quanto mais antigas forem, mais hipóteses têm de ser vendidas a um bom preço.

Há gente por lá de todas as idades. Buscam pechinchas, artigos para colecionar ou peças diferenciadoras. Porque tanto uma poltrona antiga pode dar um toque clássico a uma casa moderna, como uma placa publicitária velha brilhar na mais contemporânea das decorações de interior.

Há clientes de vários tipos a percorrer a feira que ao longo do tempo se tem estendido por mais ruas e pracetas. Mas há um género que não dispensa nunca certames de venda de antiguidades: os colecionadores. A Banca de João Almeida salta à vista, dado o aglomerado de gente que está a apreciar o que tem exposto: moedas. "Há os colecionadores mais velhos, na casa dos 50 ou 60 anos, que procuram moedas da monarquia e da república. E há os de 20 e 30, que querem as moedas comemorativas de dois euros. Dessas tenho-as praticamente todas", informa, com satisfação.

Há 13 anos que, uma vez por mês, João ruma de São Pedro do Sul e se instala, desde o romper do dia até ao anoitecer, na mesma rua. Leva milhares de moedas, às quais já perdeu a conta. Mas há uma que não perde de vista: um escudo, de 1935, em "excelente estado". Custa 3500 euros e é a menina dos olhos dos colecionadores. "Essa é a tal, não é? Deixe-me ver. Eu tenho uma, mas não está neste estado, não", atira um cliente, impressionado.

A antiguidade é um posto até para certos vendedores. Como Fernando Viterbo, um artesão que repara relógios antigos, e que se desloca até ali, desde o Porto, "há uns 20 anos". Na sua banca, além dos relógios, há uma panóplia de máquinas fotográficas analógicas. E ainda peças que fazem sonhar quem ouve o som que delas provém: gramofones. O mais caro, "a funcionar, claro", custa 380 euros. "Esta feira tem crescido. Agora vêm muitos estrangeiros", conta Florinda, a mulher de Fernando, que só ali está parada para almoçar, pois a sua banca situa-se alguns metros à frente. "Eu vendo coisas novas. Pratas, aços e pedras semipreciosas. Quando são artigos de qualidade, a Câmara deixa", revela a vendedora.

Junto ao Cais dos Botirões está, de semblante fechado, mas sorriso fácil, José Cerqueira. É das Caldas da Rainha e diz que só lhe compensa ir à Feira das Velharias de dois em dois meses. Acha que "os clientes mais velhos estão cansados de material e o pessoal novo está a gostar disto, mas falta-lhe poder financeiro". Afinal, vai ao estrangeiro fazer feiras e traz de lá produtos, como arcas da Coca-Cola antigas, que vende entre os 500 e os 700 euros. Suscitam a curiosidade de quem passa, mas não são para todos os bolsos.

Na Praça 14 de julho, encontra-se Maria do Carmo Torres, de Ovar, por entre dezenas de "registos", nome das peças de arte sacra que ela constrói, "com imagens antigas de santinhos e galões antigos", das quais anda "sempre à procura, nestas feiras, para comprar". É assim em cada esquina do bairro. Há peças com histórias para contar. Umas baratas, outras caras. Únicas. E velhas, na sua maioria. Tudo para voltar a ver a 24 de março